terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Desacelere, take it easy!



Querida, calma. Mantenha esses pés no chão. Não queime todo o gás no ambiente pois nós ainda vamos precisar dele. Diminua o volume da televisão, do rádio, dos fones de ouvido e da sua voz. Eu não vou mentir: honestamente, eu gosto de como você devora nós dois. Em como você nos consome como se fossemos um pedaço de papel. 

A sua intensidade me excita. Me faz lembrar o significado de um dia de verão em pleno janeiro. Você olha dentro dos meus olhos e eu acho que vou derreter, ou me desfazer aos poucos como a lava de um vulcão em atividade. Eu deito na cama e você está em chamas. Às vezes, posso até ver algumas delas emanando desse seu corpo. 

Desacelera, amor. Por quê gastar a vida assim? Abre a janela. Você já viu como o céu está bonito hoje? Como esse tom de azul combina com a sua pele e com o seu cabelo e como você consegue ser graciosa dançando com os raios de sol? Slow down, babe. Me dá um tempo e se dá um tempo. Deixa o silêncio te mostrar o quanto ele pode e quer te dizer. Você vai descobrir que lá é o melhor lugar do mundo. 

Fica quietinha só hoje e deixa o seu pulmão sentir o ar entrar e sair. Fecha os olhos e eu prometo que quando você abrir de novo, eu ainda estarei aqui. Sossega esse coração que vive sempre a mil por hora e quase não deixa você perceber que no fundo, não é nada demais. Que na real, nem existe problema e que às vezes o nosso problema é só perder tempo pensando em como resolver aquilo que iria se resolver naturalmente. Sabe? Eu não vou a lugar nenhum. Não sairei correndo de você e nem me esconderei, porque eu gosto de estar aqui, e você sabe que eu gosto. 

Vem cá, segura aqui a minha mão. Vamos subir aquela montanha devagarzinho. Você nem vai perceber quando chegarmos no topo. E meu bem, lá é tão lindo. Tão calmo. Vamos lá, diminua o ritmo, deixe o vento te mostrar a melhor música o mundo: a da natureza. Permita-se viver, sentir o seu sangue caminhando por cada cantinho das tuas veias. Eu prometo que quando tudo estiver em câmera lenta você vai descobrir tantas coisas, vai ver, respirar e sorrir para tantos momentos. Afinal, um sol nunca nasce antes do outro ir embora. 

Take it easy. 

sábado, 14 de dezembro de 2013

Do you remember?


Para ler ao som de: Mais Feliz - SILVA 

Onde foi que nós nos perdemos? Sentado aqui, nessa maldita poltrona que você me encheu tanto o saco para comprar, eu fico me perguntando em qual das esquinas nós acabamos soltando nossas mãos. Em qual vitrine eu me esqueci de olhar para trás e em qual calçada eu acabei permitindo que você atravessasse sem o meu olhar, que julgo eu, sempre foi muito protetor.

Eu tô tentando fazer um esforço para entender. Eu juro que eu estou. Mas eu sei e você sabe que o conjunto “nós” nem sempre foi descomplexo e isto anda atrapalhando a minha análise. Sabe, o café que eu tô bebendo agora tá super ruim, e eu tô com uma saudade do jeitinho estranho e engraçado que você cozinhava aqui em casa. Tô sacudindo a cabeça pra ver se uma peça chave desse quebra-cabeça se desprende de algum canto escuro e faz tudo ter sentido de novo. Mas não tá rolando.

Eu queria tanto lembrar em qual momento você parou de atender as minhas ligações e em qual momento eu parei de ligar. Quando foi mesmo que nós passamos a só nos encontrar aos finais de semana, já que quando eu chegava você já estava dormindo e quando eu acordava você já tinha saído? Eu tô tentando. Mas eu juro que não lembro.

Amor, eu tô sentindo a sua falta. E eu também estou sentindo uma culpa estranha. Porque sei lá, eu acho que eu não sei explicar se essa falta é de amar você ou é da monotonia que nos tornamos. Se eu te falar, talvez você não acredite. Mas nos últimos meses eu tenho flashes de “nós”. Eu sempre soube que você estava aqui e eu sei que você também sempre soube que eu estive aqui, mas alguma coisa no meio do nosso caminho quebrou, e ou você ou eu acabamos escorrendo para um buraco muito fundo e agora ou eu estou perdido ou eu não consigo te encontrar.

Nossa, que droga de café. Sei não, mas aí, se de repente você estiver de novo vendo aquele vestido estranho na vitrine daquela loja que eu nunca  mais vou lembrar o nome, me liga, me chama, porque acho que no fundo eu só tô precisando ouvir a sua voz. Eu acho que antes de você dizer “Tô indo embora”, eu até sabia do que tava se tratando. Mas depois que o lençol esfriou eu meio que ando num estado alucinado. Flutuando na minha própria realidade.


Então, se você lembrar, liga pra mim e me faz lembrar de novo como é te amar, porque tá foda sem você. 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Centelhas


Hoje ela acordou e sentiu que precisava de uma vez por todas se sentir bonita. Precisava finalmente (ou não), determinar o que iria determinar a sua autoestima. Então ela foi ao salão de beleza, cortou os cabelos, fez as unhas, desenhou as sobrancelhas e até se depilou. Foi tudo para ela. Cada centavo e cada centelha de autoconfiança que depositava em si própria.

Depois de lá, foi até uma loja de “tamanhos especiais” e usando algumas dicas de blogs e blogueiras que lia ou seguia, montou um look que achou adequado, moderno e a fez se sentir sensual. Na calçada seguinte, um par de sapatos fabuloso e um perfume de tirar o fôlego de qualquer um.

Era sexta feira e a oportunidade estava ali. Sentia-se quase renovada, como se algo dentro dela houvesse enfim despertado e uau, em muito tempo era a primeira vez que ela ela realmente se achou bonita diante do espelho. Sentiu-se atraída por si mesma e repetiu “Nossa, você está maravilhosa”. E com essas palavras tomou o rumo da noite.

Encontrou 2 ou 3 amigos e decidiram depois do barzinho que seria uma boa discotecar. Ele estava lá. Sempre esteve e tinha a impressão de que estaria por mais um bom tempo. Bons amigos, um papo tranquilo, fluíam com muita facilidade. A noite estava quente e o álcool no sangue de todos animou tudo mais um pouco.

Desceram a rua Augusta cada um com sua lata em mãos. Rindo alto e esquecendo que o dia amanheceria dali algumas horas. Escolheram o lugar e pronto! Mais latinhas, mais risos, dancinhas engraçadas, dancinhas sensuais. Ele continuava lá. Ela queria que ele pudesse sentir o seu perfume, tocar em seu cabelo, notar como sua pele estava lisa. E ele o fez. Encontravam-se na pista de dança e deslizavam-se um no outro, mãos, braços, costas, peitos, rosto. Ela sentia como se estivesse na beira de uma escada, faltando apenas um degrau para chegar ao céu. E de repente ele não estava mais lá.

Quando a consumação acabou, foi como quebrar o feitiço. As luzes não piscavam mais tão alegremente. Ao contrário disto, elas brilhavam com uma força insuportável.  A música boa mantinha o ambiente fervendo. E ele continuava lá. Então ela percebeu, ela se deu conta, de que ele continuaria lá, mas não do jeito que ela esperava. As pessoas tem esse costume absurdo de fazer promessas “de segunda-feira” querendo que o mundo possa mudar em um estalo de dedos. As pessoas também repudiam o termo “a longo prazo”. Ele não seria dela essa noite. Hoje ela estava se amando porque queria ser amada, porque achou que poderia ser amada. Mas quando a noite acabou e a carruagem virou abóbora, ela voltou a ser a gata borralheira.


E era assim sempre. Centelhas de dias felizes. Desejos inibidas. Um “querer mais” velado e uma vontade insuportável de ser amada. 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Henrique Pt. II



Ele está se movimentando na cama. Enrolado nos meus lençóis. Rapidamente minimizo a janela do word. Não que eu tenha algum problema em deixá-lo ler a história. Até porque, tudo que já escrevi até aqui é a mais pura verdade e de alguma forma, sei que ele, no fundo, também sabe disso. Abro um sorriso amarelo quando ele me fita. Estou sentada na cadeira com um pé apoiado no acento e o queixo sob meu joelho. 

— Bom dia. — digo 
— Bom dia Babi. — responde ele sorrindo antes de procurar pelo relógio no pulso e perceber que é hora de ir, embora seja sábado. 

Confesso que eu mesma não percebi o dia amanhecer. Acho que já passava das 7 da manhã. Mesmo sendo cedo, sei que Henrique tinha milhares de coisas para resolver no dia e é claro que, eu não me importava. E então fiquei ali, assistindo ele se levantar e se vestir enquanto comentava o quão boa havia sido a nossa noite o quanto aguardava pela próxima vez. Fico enjoada novamente. 

— Eu ligo para você mais tarde ok? — diz ele tomando um gole do café já frio. — Argh! Babi!
— Desculpa! Estava pesquisando umas coisas para a faculdade e esqueci de beber. — respondo afastando a xícara de perto dos dedos dele. 

Ele se inclina e me dá um beijo demorado. Não faço a menor questão de sair da minha posição. Na verdade, o maior movimento que me dou ao luxo de realizar é levar uma das minhas mãos até sua nuca e afagar de leve seu cabelo. A sensação continua sendo a mesma que a da primeira vez. Ou seja, quase nula. Mas devo dizer que uma pequena parte de mim resiste e tenta a todo o instante me mostrar algo que eu já deveria ter percebido. Tenta me fazer entender que, se eu quiser, ele estará lá, e que isso me faz bem, porque ele me quer bem. Trato de afastar esses pensamentos assim que ele me dá um último selinho. E sorrio fazendo-me parecer chorosa pela despedida. Henrique atravessa a porta e a fecha em seguida. 

Neste momento estou apoiando os cotovelos sobre a mesa e esfregando minhas mãos em meu rosto. Quem é você? Penso. Abro novamente a janela do word e antes de digitar uma palavra sequer, puxo uma gaveta embutida na mesa e pego uma cartela de cigarros. Arrasto a xícara de café novamente para perto e acendo o primeiro cigarro. O deixo queimando junto aos lábios e volto a escrever. 

Eu acho que sou uma pessoa difícil

E também acho que seria injusto continuar essa história sem falar um pouco sobre mim e sobre quem eu sou, ou pelo menos quem eu suponho que sou. Ah e não que tenha muito a ser dito, não. Mas bem, devo começar dizendo que não me lembro de ter tido muitos relacionamentos. E quando digo isso, não falo de "namorados" em si, mas de envolvimentos com outras pessoas. Envolvimentos reais que falem de sentimentos e essas coisas. Se precisasse listar, talvez pudesse contá-los nos dedos de apenas uma mão. Isso é realmente um pouco frustrante as vezes, mas na maior parte do tempo lido bem com a situação, e em momentos melhores, nem me lembro pra falar a verdade. 

O meu primeiro amor surgiu quando eu tinha 9 anos. Um pouco tarde eu acho, ou não. Tem gente que morre sem saber se amou alguém ou não. Mas enfim, eu tinha 9 anos e ele tinha 10. Estudávamos na mesma sala e bem, é claro, éramos, ou nos tornamos, melhores amigos. Eu achei que, conseguindo sua confiança e o seu carinho, depois seria mais fácil chegar no momento em que lhe daria um beijo escondido em um canto escuro da escola. Obviamente isso não aconteceu. Amigos demais. Eu esperei um dia todos irem embora até que, na sala, só ficássemos eu e ele. E então eu lhe contei tudo. Ele ficou constrangido, segurou minha mão e disse olhando em meus olhos: "Babi, olha... Você realmente não faz o meu tipo. Mas tenho certeza que faz o tipo de alguém." e sorriu. Eu nunca mais me declarei para ninguém. 

Os outros amores foram quase como esse, mais o que realmente precisa ser dito é que nenhum deles terminou bem, afinal terminaram, não é? E eu tenho essa coisa do "término" muito fixa na minha mente. Eu sinto que nada que é bom e termina, pode ser bom de verdade. Eu tinha uma explicação melhor para isto mas, confesso que estou com preguiça agora. O importante é lembrar que sempre foi assim. Eu nunca apresentei ninguém aos meus pais, nunca houve uma foto minha e do meu namorado/namorada sob a minha estante e eu nunca tive para quem dar presentes no dia dos namorados, essa é a verdade. E eu não sou uma pessoa pior ou melhor por isto, que fique bem claro. 

Então, diante de toda essa situação, durante a maior parte da minha adolescência e em alguns dias atuais, eu me questiono se há algo em mim diferente, diferente no mal sentido. Quer dizer: porque as coisas simplesmente não acontecem, ou acontecem assim?. Tá na cara que nunca achei uma resposta.  Mas achei hipóteses. 

Eu tenho muitos amigos. Colegas, conhecidos. E não tenho nenhum problema em partilhar minha vida particular com eles. Nunca tive eu acho. Sou o que as pessoas chamam de "livro aberto" e ainda não vivi o suficiente para ter certeza de que isso é bom ou ruim mas, atualmente, não importa. E então, como sou uma pessoa transparente, é fácil para quem está ao redor sentir-se livre para opinar. Deve estar claro que eu questionei essas pessoas sobre o que elas achavam de mim, ou que elas achavam que eu deveria fazer. E eu tenho uma preguiça ainda maior em dizer todas as respostas, mas vou resumir todas elas em pouco mais de uma linha: "Você deve se dar uma chance, dar uma chance às pessoas. Precisa deixar que elas enxerguem quem está aí dentro, precisa baixar a guarda". 

Ai meu Deus, eu estou invisível

Fim. Esta sou eu. E é por isto que estou com Henrique. Sim, eu lhe dei uma chance, e me dei uma chance, mas eu preciso lembrar, que ele, é um amor que eu inventei. Ele é a minha ficção. Ele é a mistura da minha expectativa e da minha realidade. Eu amo não estar sozinha, mas eu não amo o Henrique. 

Continua...






quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Henrique - Pt I





Tenho a impressão que lá fora, o mundo inteiro ainda está em suas camas, confortáveis, em algum lugar afastado da realidade cruel e nojenta na qual vivemos. Porque o sono nos dá isso, ele tem a capacidade de te transportar para onde e quando você quer e prefere ir. É claro que, pesadelos são uma exceção, mas não vou falar deles na minha história. 

Na minha história eu vou falar de mim, e dele. Mesmo que eu tenha a impressão que isso só significa, definitivamente, falar unicamente dele. 

Neste momento na minha mesa, além do meu notebook, tem também uma xícara de um café que eu nunca vou beber, mas, como eu gosto do cheiro e como foi ele quem fez, eu resolvi esquentar e deixar aqui do lado, para ver se me dava alguma inspiração. Embora a maior delas esteja um pouco mais a frente, jogado na minha cama, dormindo como se todos os problemas do planeta pudessem ser esquecidos, por uma noite, por um dia. Sorrio, ao pensar que, obviamente ele não resolveu e nem pode resolver todas essas questões, mas que há algumas horas eu senti, em seus beijos, em seu calor, na fricção da sua pele contra a minha, que os meus sim, os meus problemas, ele foi capaz de sucumbir. Esfrego dois dedos nos lábios e me permito viver 3 segundos daquele momento novamente. E então me viro mais uma vez para o teclado e respiro fundo. 

Henrique é um amor que eu inventei. digito

Tenho pouquíssimos anos de vida. Mas o suficiente para achar que entendo um pouco sobre ela e sobre relacionamentos e é claro, sobre o pacote que vem junto com eles: amor, sofrimento, e aquele misto enlouquecedor do sobe e desce dos sentimentos. Eu conheci o Henrique em uma festa. Sim, nada demais. Eu gosto muito de festas, contudo, ultimamente, tenho pensado se gosto delas por serem festas mesmo ou se são uma fuga para me manter longe da minha própria realidade complexa e mentirosa. Bem, ainda não tenho uma resposta. Mas foi isso, ele estava lá, com dois ou três amigos, homens e mulheres, e eu, como já deve esperar, estava um pouco mais alta em relação ao álcool. Não estava sozinha, mas naquele instante foi como se estivesse. Então me aproximei. Ah! Não ache que fiz isso porque estava bêbada ok? Muito pelo contrário, eu faria se estivesse sóbria também, acho que nunca tive problemas com "conhecer novas pessoas" ainda mais num ambiente como numa festa. 

Só um minuto, estou enjoada... 
Ah, voltei. E não, engraçadinho, não estou grávida. É que fazem horas que não como nada e meu corpo já está começando a reclamar. Mas acho mais fácil escrever quando estou livre de qualquer prazer, e diga-se de passagem, comer é um forte rival neste quesito.

Como estava dizendo, cheguei perto de Henrique e fiz o que muitas pessoas choram de medo de fazer. Toquei no ombro dele e quando ele se virou eu sorri e disse: "Oi!". Ok, Henrique não é um cara que faz o ciclo menstrual das garotas mudar só com uma piscada no olhar. Não. Ele tem uma beleza diferente, eu diria até peculiar. É alto, não muito magro, tem os olhos castanhos bem claros e bem, o que eu mais gosto, tem uma voz marcante e um cheiro... ah, o perfume. Pois é, ficamos ali, conversando durante o que me pareceram horas. Falamos desde as músicas que gostamos até às frutas que odiamos, e ah, ótimo! ele odeia figo também! Rs. 

Num piscar de olhos, a noite acabou e eu precisava ir. E como não estava sozinha não havia a menor possibilidade de "fugir" para qualquer outro lugar. Estava sem meu celular e tive que fazer algo que sim, me deixa extremamente insegura: passar meu número para ele e cultivar uma pouquinho de expectativa de que ele se lembraria de me ligar ou mandar um "olá" no dia seguinte. Nos despedimos e ele me beijou. Naquele beijo não senti, sinceramente, nada de excepcional. Meu coração não bateu mais rápido e nem soube que algo em minha vida havia mudado. Não. Não houve nada. Nem estrelas, nem fogos, nem calor. Apenas um beijo. Mas fiz com que ele achasse que tivesse me tirado do chão. Não sei bem o porquê, mas depois de soltar seus lábios e parecer bem ofegante eu soube, pelos olhos dele, que queria que ele fosse minha mentira. 

Ele não me mandou um "Olá" no dia seguinte. Na verdade ele mandou: "Babi. Não sei o que você colocou na minha bebida ou na nossa conversa, mas confesso que estou realmente cogitando repetir a dose. Adorei conhecer você. Beijos Rike". Eu li. Não sorri. Não demonstrei nenhuma reação do tipo: "OMG, ele lembrou de mim e OMFG, ele quer sair comigo de novo". Não. Mas respondi como se tivesse sido assim. E por fim, nós nos encontramos, uma, duas, cinco vezes. Foram 2 meses. Dois meses de sorrisos falsos, de beijos ofegantes, de frases como "eu adoro estar com você" ou "que bom ter achado você". 

Ele estava feliz. E eu tinha todos os motivos para estar também. Mas apenas tinha. 

Esperem, ele está acordando. 


Continua... 




quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Das Loucuras de Se Amar mais de Um



Limitações. Se pudesse definir uma palavra para o que eu enxergo atualmente nas pessoas, na vida delas e no restante do mundo, usaria esta: limites. De certa forma, me sinto bastante incomodada em perceber como as pessoas são capazes de delimitar-se e traçar uma linha de “segurança” para tudo e qualquer coisa em suas vidas. Tudo é errado demais, arriscado demais, estranho demais. Quando penso nisso, penso indiscutivelmente no poliamor. A capacidade que alguém tem de amar e oferecer amor para mais de uma pessoa. O contrário de monogamia.

Há tantos anos tentam definir o amor, encubá-lo em uma definição que seja a mais apropriada, ou a mais correta e todas as tentativas falhas. Mas, uma coisa as pessoas enchem a boca para gritar com certeza: só pode existe amor entre duas pessoas. Não! Eu sei que boa parte dos indivíduos no mundo não acredita no poliamor. Não consegue entender o como alguém pode permitir “dividir” quem ama.

Muitos, costumam confundir tudo isso com “ménage” (a prática do sexo entre três ou mais pessoas), mas diferentemente do que se acredita a prática do amor em trio ou mais, não está apenas relacionada ao sexo. É, na verdade, bem mais do que isso. É sentir que o coração funciona como um tripé, que quando uma das três partes não está, fica incompleto, incomoda, desajusta. É dormir e acordar na mesma cama e ter vontade de beijar duas (ou mais) bocas e dizer “eu te amo” com a certeza de que é real, de que é tão fundo e verdadeiro como qualquer outro tipo de amor.

Outro dia, assistindo um documentário sobre o tema, ouvi uma mulher ser questionada: “Como você consegue amar os dois, igualmente, ao mesmo tempo?” e ela respondeu algo como: “Como você conseguiu amar seu pai e sua mãe, igualmente, ao mesmo tempo”. E é exatamente isto. A analogia para mim, não poderia ser mais perfeita. Você já pratica o poliamor desde que se entende por gente, e sem ter a mínima noção do que é isso.

Doar-se a uma experiência como essa pode parecer loucura, eu sei. E em muitos casos podem haver diversas teorias de como “eles” vão acabar um morrendo de ciúmes do outro e brigando e se matando e finalmente, terminando. Mas eu tenho fé neste modo de vida. E sempre achei que o problema dos outros casais era não tem a mente tão aberta a ponto de se permitir apaixonar por outras pessoas e viver isso sem restrições. Se existe algo que hoje, para mim, que define o amor é a palavra: ilimitado.

Texto publicado na Revista OUTING: Limitações

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Hoje não.


Querido você

Hoje eu me sinto saturada. Colorida com apenas uma tonalidade. A cor que toma conta de mim ofusca até mesmo meus próprios olhos, quando me atrevo a olhar meu reflexo no espelho. 

No meio do dia eu senti a angustia de transbordar a sua presença. Como se cada pedaço de mim, cada célula que compõe meu corpo emanasse VOCÊ. Resolvi tomar um banho e por mais que eu esfregasse minha pele, a consciência de que você estava lá e não sairia, não me deixou. As vezes eu penso em como vai ser amanhã. Em como seria uma vida onde eu pudesse respirar sozinha, sem precisar da luz ou da sombra de qualquer outra coisa ou pessoa. 

Refletindo um pouco, de vez em quando, sinto que nunca caminho com minhas próprias pernas; numa dependência de sei lá o que ou quem, tão absurda que chega a me irritar. 

Olha, não é contínuo mas hoje eu cansei de nós.


Com amor, eu.

domingo, 8 de setembro de 2013

"Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo"*


Das condições que a vida te dá para seguir algum caminho, você sempre é frustrado por ter que desistir de algo ou alguém, ou por ter que escolher isto ou aquilo. A plenitude nunca é. Ela só parece. E bem às vezes por sinal. E a gente tá sempre sendo guinado por essa sede de tudo, de tudo ao mesmo tempo e no mesmo lugar. 

Na minha cabeça (já que do meu coração eu desisti), ser feliz já algo complexo e intenso demais para se juntar ao que a gente chama de "amor". Amor é uma dose de droga que se parece muito com felicidade, se veste e dança. Te confunde, te ilude. Você tá sempre insatisfeito, tá sempre com a sensação de que precisa de mais e mais doses daquela porcaria. Até que vem a abstinência; Eu não vou explicar, porque quem já sofreu de falta de amor sabe bem como essa dor é inexplicável e se sentiria até ofendido ao ler a minha ridícula tentativa de descrição. 

A felicidade é um sentimento solitário, independente. Você não sofre por não estar feliz, você apenas não está. E isso não significa que você está triste ou mal, entende? E tudo bem por isso, ok? Não existe espaço dentro do coração e do cérebro humano para se amar e ser feliz ao mesmo tempo. Concordem, ou discordem. Resmunguem ou não. Fatos são fatos e mesmo quando não são, um dia, uma hora, com alguém ou sem alguém, eles se tornam.


*"Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo", livro de Myrna, pseudônimo de Nelson Rodrigues. 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Sobre as coisas que eu não acredito...




...e sobre a minha mania de acreditar no que não existe. 

A paz mundial, o fim do ódio, o fim da dor, a despoluição dos rios ou do meu coração, sua promessa de lavar aquele sapato velho ou de reformar sua mesa de madeira, aquele olhar que parecia dizer tudo e nada ao mesmo tempo, princesas, a fantástica fábrica de chocolates, o amor e finais felizes. Eu não acredito em nada disso. E não é que tenha algo de pessimista não, é por não acreditar mesmo. Por não pôr fé, por achar descartável. Ilusório, utópico. Mentiroso.

Clichês como "o tempo vai curar" nunca fizeram a minha cabeça. Muito mais pelo fato da minha teimosia sem igual do que qualquer outro motivo. A gente fala tanto de como as coisas poderiam e devem ser e esquece de viver elas primeiro, esquece que, para algumas muitas coisas e situações na vida, não existe uma receita ou resposta pronta. Taí um dos motivos pelo qual acho que as pessoas prolongam seus sofrimentos. Esse costume de acreditar que tudo tem uma explicação, razão ou circunstância. E olha, calma, eu em partes, também acredito nisso. Não sou fã do acaso e nem acho ele muito válido, mas ele existe tá? Ele vai estar lá. E você, não vai poder explicá-lo ou defini-lo, colocá-lo numa fórmula na forma de um poema ou uma música e generaliza-lo para o resto da sua vida ou da vida dos outros. O acaso, como eu entendo, serve para a gente despertar em algum momento e perceber que o vento nunca vai soprar sempre na mesma direção. Nem todas as histórias de amor tem finais felizes, você não vai lavar aquele sapato velho, o amor é uma construção psicológica, o ódio não vai acabar e não haverá a despoluição do meu coração. 

Mas para todo não, existe um sim, ou dois. E para as coisas que eu não acredito, existem as que eu acredito e que interessantemente não existem. Sou daquele tipo de pessoa que fecha os olhos e anda na corda bamba. Eu acredito nas verdades que ele disse, acredito nos beijos que prometeu, acredito naquele bilhete de loteria que joguei na semana passada, acredito na gente. Acredito nos sorrisos solitários das ruas, acredito no futuro que eu nunca vou ter.  Eu acredito em bruxas, demônios e principalmente em fantasmas. Eu acredito no escuro e no poder das palavras. Eu acredito em mim. Aquela música que você cantou, lembra? Eu também acredito nela. 

Eu sou do tipo que me apego a tudo. Mas não por medo de um dia não lembrar, ou esquecer-se de alguém ou algum momento importante. Normalmente quando faço isso, é na tentativa de manter a pessoa ou o momento vivos, ali, palpáveis. Porque eu sou assim, preciso tocar, preciso sentir, preciso que queime para eu saber que dói, preciso que molhe para eu saber que é frio. Vivo a base das experiências empíricas. E com ela não foi diferente. Nos primeiros meses eu já sabia qual seria o final, eu já sabia o que vinha pela frente e que só com muita sorte eu passaria viva pelo tsunami que ela seria. Mesmo assim, fechei os olhos e fiz tudo no maior estilo “deixa a vida me levar”. Como quando uma mãe leva o filho a praia e logo avisa “olha, cuidado! O mar é traiçoeiro, não vá muito para o fundo” e a criança faz o quê? Vai para o fundo. É lógico! E  o que acontece? Vem uma onda e arrasta a criança com tanta força no chão que provavelmente ela nunca mais vai querer brincar de “ir para o fundo”. Acontece que pra mim, o fundo não era e nunca foi suficiente.

A gente se prende a realidade e tem esse costume insuportável de delimitar uma linha para as coisas que são de verdade e as que são de mentira. O que é real para você? Aquele abraço que ele te mandou por telefone, você sentiu? E aquele perfume que tomou conta de você naquela noite quando lembrou do dia em que se conheceram, foi real? Quem tem o poder de segurar a linha tênue que te separa da realidade que você cria, da realidade que eles acreditam? 

Aquela coisa que a gente chama de tempo passou. Passou e eu até que acostumei com aquela historinha idiota e mentirosa que todo mundo que sofre ou já sofreu de amor inventa: “ai agora eu vou ser feliz sozinha”. Tava legal até. Mas eu não sou essa pessoa. Nem eu, nem você e nem ninguém neste mundo nasceu para estar sozinho. Por mais que eu tenha negado isso para mim durante meses a fio, eu percebi que estar sozinho às vezes pode ser uma escolha, mas na maioria das vezes é só um estado do qual nós queremos nos livrar vorazmente. E tem gente que acostuma sabia? Acostuma tanto que chega uma hora que não aguenta mais. Não suporta nem olhar os outros nas ruas. Ver beijos nas novelas ou ouvir músicas românticas. Dia dos namorados então é O inferno. Dá vontade de abrir um buraco no meio da terra e se enfiar o mais fundo que conseguir. 

E eu me pergunto se é possível que nada disso tenha sido real. Se é possível que toda a dor, todo o sofrimento, toda a angustia tenha sido um delírio. Hoje, eu insisto nas coisas que não acredito e na minha mania de acreditar no que não existe, porque para mim, ela foi real.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

I Will Burn You



Em chamas flamejantes, eu queria ver você. Como um pedaço de papel que vai sendo consumido, devorado e engolido pelo calor do fogo. Sonho em testemunhar o seu fim; o dia em que você deixará de ser um fantasma e vai pular de vez para a minha realidade ou desaparecer de uma vez por todas. Vai! Sai logo de cima dessa corda bamba que sempre tende a me marcar ou me deixar doente por você. Pula pra cá ou fica aí mesmo, não se envolve e nem me envolve porque eu não quero e não tenho mais nada a ver.

Não pode ser tão horrível querer ver seus olhos brilhando diante da única coisa que consegue ser mais intensa que você mesmo. Deixa eu me livrar das suas palavras, desse seu amor barato, engarrafado e perfeito. Eu vou queimar você. Nem que seja a última coisa que eu faça, eu vou queimar você. Suas fotos, suas ligações, seus sorrisos, o seu cheiro, a sua voz, nossos desenhos. O quadro, os livros, as cartas, as flores. Eu vou quebrar tudo. Suas doses de felicidade, nossas lembranças, o vaso de flores, você. Vou chamar por Deus, pelos Santos, pelos Orixás e por quem puder me ouvir porque eu não me permito mais te guardar em mim. Estou arrumando suas coisas e jogando pela janela. Vou gritar aos vizinhos. E chame a polícia! Faça um escândalo. Diga que me ama. Me mate. Mata logo esse pedaço de você que já vive em mim assim, sem a menor cerimônia. 

O salão estava limpo e arrumado, mas você achou que eu suportaria mais uma festa. Não! Você estragou tudo. Viu? E eu chamei os seus pais para o seu fim. Eles choraram. Desculpe o riso, mas eu não sei fingir. Desculpe o choro, mas eu não sei ser feliz sem você. Mas, vai sem você mesmo. Leva embora, fuma, afoga, corta. Eu vou deixar você queimar e vou pedir ajuda para não cair. Porque eu quero me manter em pé e com os olhos bem abertos para o momento em que você morrer aqui dentro. E não precisa falar da dor, da culpa e da angustia. 

Eu não vou mudar de ideia, porque eu vou queimar você. 

sábado, 13 de julho de 2013

Medo Do Escuro




No dia que você resolveu ir embora, eu não sabia. Acho até, que nem você sabia. Naquele dia eu não teria deixado você sair de casa, não teria evitado te ligar ou te mandar mensagens por toda a manhã só para saber se estava tudo bem. Se eu soubesse, eu teria dito logo tantas coisas. Teria dito para não esquecer a toalha molhada em cima da cama, teria dito para lavar a louça de ontem à noite, dito para levar um casaco de frio, mesmo sabendo que estava muito calor lá fora e teria dito de uma vez por todas que amava você. Não guardaria dentro de mim essa culpa velada que me sufoca agora a todo instante, como uma tosse seca.

Naquele dia você tinha acordado atrasado, e eu até estranhei porque se tinha algo que eu admirava em você, era essa sua organização, essa pontualidade com tudo, inclusive comigo. Engraçado né? Quando o sol nasceu você não despertou, e por não dormirmos no mesmo quarto, também acabei deixando a hora passar. Tomou café correndo e nem lembro se penteou o cabelo. Ah se eu soubesse.

Teria te abraçado com mais força, sentido melhor o seu perfume que ficou lá, em cima da sua cama, jogado. Teria dito: “fica, o dia tá tão bonito.” E eu sei que você ficaria porque daí saberia que não era por mim, e nem por você, seria por nós. Por tudo que você arrastou por aquela porta quando saiu com uma torrada nas mãos. Por toda a dor que você sempre me causou, mesmo quando eu mentia dizendo que “tudo bem” de você sair com uma ou outra garota naquela noite e levar ela lá em casa. Por todo o ódio que eu senti de você todas as vezes que eu me atirava em cima do colchão chorando bem baixinho para não ter que te dar satisfação. Por essa agonia venenosa que tomou conta dos móveis, das roupas, de mim, da gente.

Porque você não me deu tchau e nem sequer até logo. Porque você prometeu que me protegeria e que estaria aqui, estaria lá, estaria em qualquer lugar para mim. E naquele dia quando você resolveu ir embora e pegar aquele ônibus, porque você falou? Por que não ficou quieto como eu sei que costumava ficar? Por que o seu senso heroico resolveu acordar naquele dia e reagir àquele assalto? Por que tomou aquele tiro? Ein?

Olha, eu estou aqui, na nossa casa... Jogada no chão te fazendo e me fazendo todas essas perguntas por que a bala que te atingiu também me perfurou. E ela tá girando para dentro da minha pele e queimando tudo. Os meus sonhos, a minha confiança, a minha autoestima. Você prometeu que estaria aqui. E eu acreditei. E no outro dia você me perguntou: “Está estranha, faz uns dias, não tem nada pra me falar? Você é minha melhor amiga, sabe disso, confia em mim”. Eu segurei sua mão, beijei e chorei no seu ombro e respondei: “Tem nada não, tô com saudade da minha mãe”. Eu deveria ter dito: “Tem nada não, é que eu tô apaixonada por você.”.

Olha, quando você resolveu me deixar você desligou a luz de casa. E você sempre soube que é do escuro que eu tenho medo. E sei lá, onde quer que você foi, eu nunca vou te perdoar.

domingo, 7 de julho de 2013

Vou Precisar



Eu estava caminhando por aquele corredor frio do qual eu nunca gostei e acho que nunca vou gostar. Nele, as pessoas nem se quer se entreolhavam, estavam tão mergulhadas e imersas em seus próprios problemas que, era difícil notar que existia vida naquele lugar. Que ironia. Se bem que, o que poderia se esperar de um corredor de hospital, se não tristeza? A ironia vinha da felicidade de alguns em receber a vida, na forma de um bebê ou de uma cura. Você já deve imaginar que este não era o meu caso. E provavelmente não era o caso também dos três ou cinco que eu vi arrastando os pés por aquele chão diária e incansavelmente branco e limpo. 

Esfreguei a ponta dos dedos entre os seios e respirei lentamente para ver se doía um pouco menos. Mas não adiantou. Dei mais alguns passos e abri a porta do quarto onde dormia há 2 dias. Você não estava lá. Provavelmente conversava com algum médico naquela imensidão mórbida. Suspirei e fechei a porta. Sentei por alguns instantes na cama e toquei meus cabelos, secos, sem brilho e sem vida. Molhei os lábios lentamente e fechei os olhos por um instante. Me perguntei se era justo. Meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho da porta se abrindo novamente. Olhei para você, ansiosa. Mas não houve retribuição. 

— E então? O que disse o exame?

— Ah... nada ainda. Os médicos dizem que você está perfeita. Sua saúde é melhor do que a de 90% das pessoas aqui dentro. 

— E como explicar essa dor? O pânico, os choros, a tremedeira? 

Você não quis responder. Na verdade eu acho que não soube, porque balançou a cabeça negativamente e segurou minha mão como se quisesse dizer: "Eu não sei, mas eu estou aqui". E eu juro que era disso que eu tinha medo. Medo de fazer você ficar. De te levar para um fundo onde nem eu, nem você, veríamos a saída. Eu não sabia dizer se eu suportaria, não a dor, mas você. Não sei dizer se suportaria ver você sofrer. Mesmo sabendo que fazia de tudo para não demonstrar. Eu sei que achava mesmo, que eu não te via pelos cantos da casa chorando sozinho. Eu sei que, as vezes, sorria para evitar uma lágrima minha. Sei que por várias noites, você se assustava com meus gritos dos pesadelos e corria pela casa derrubando todos os remédios, a procura do meu calmante e que quando não encontrava sentia até um pouco de alívio por ter que sair no meio da noite para comprar porque os meus gritos eram o seu abismo. Te fazer sentir impotente diante de mim, me fazia sentir a pior pessoa do mundo. Ah meu Deus, e como eu me culpava.

Eu te olhei compreensiva e triste. Não consegui suportar a onda de dor aguda que vinha me atingir o peito como as águas do mar enfurecidas atingem as pedras na costa. Fechei os olhos e senti os lábios tremerem com força, baixei a cabeça e eu poderia me atirar dali mesmo, de cima daquela cama alta, torcendo para cair de cabeça e morrer logo. Mas você nunca deixaria isso acontecer, então antes que a primeira lágrima queimasse meu rosto você já estava lá, me amparando com seus braços que nem era tão fortes assim, mas que eram a minha força. Eram tudo que eu tinha. Já que meu problema de fato era não ter nada. Mesmo sabendo que você sempre significou tudo. Entre soluços eu quis ser decisiva... 

— Eu não quero mais, eu não aguento mais... dói muito, tá doendo muito! 

— Eu sei, eu sei... amor, eu sei... 

A agonia na sua voz me cortava como uma lâmina afiada. Eu sentia no seu desespero o crescer do meu. Eu sentia na sua insegurança, a minha responsabilidade. Mas passou.

O dia amanheceu e você tinha dormido lá mesmo. Acordei amarga e meio mal humorada, apesar das suas inúmeras tentativas de me fazer sorrir. Sim, por que você gostava de fazer assim, de me comprar doces, de por músicas que eu gosto no carro, de me contar piadas... mas não adiantou. Foi quando chegamos em casa. A nossa casa. Você lembra que era nosso sonho? Lembra? E a gente achava que nunca ia dar certo. Pois é. Você abriu a porta do carro para mim e me pediu para olhar o céu, que naquele dia estava azul, azul... como a cor dos seus... 

Eu não olhei.

— Eu não posso mais fazer isso. Não posso mais... tá me machucando mais do que essa maldita dor ridícula que não me deixa dormir. Eu não quero mais nada disso. Eu não quero o seu amor, eu não quero o seu  carinho, eu não quero a nossa casa, eu não quero esse céu azul... eu não quero mais você.

— O QUÊ? — Você me olhou horrorizado, e eu quase me desmanchei no chão de tanto chorar. 

— Amor... eu não posso mais.

— Você está maluca, ALTERADA, para de dizer essas coisas, me machuca assim. Ei, não chora! Não chora, vem cá. A gente vai achar de onde tá vindo esse problema, viu? Vai ficar tudo bem, você não acredita em mim? Confia em mim.

— Não. Eu não acredito... PARA de mentir pra você. Eu não posso te tomar mais esse tempo, essa paciência que você poderia estar gastando com alguém que realmente vale a pena, ou que tenha solução.
—Nã...

— NÃO! Não fala. Não dá mais...

— Porque?

— Porque eu preciso de você.

— Eu TAMBÉM preciso de você!

— O problema é que eu vou precisar muito mais!!

— (...)

— (...) 



(O resto dessa história ninguém nunca soube, ou ouviu falar. Alguns dias depois, o silêncio tomou conta da casa do jovem casal, que não eram bem um casal. Nunca mais ninguém o ouviu sair de carro na madrugada, porque provavelmente ele nunca mais a ouviu gritar à noite.) 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Não Desiste de Nós




Vem cá, deixa eu abraçar suas costas nuas, ouvir o seu coração e conectar o meu nele só pra sentir que alguma coisa ainda bate viva aqui dentro. Deixa eu sentir seu cheiro, beijar sua pele, te apertar contra mim como se a gente fosse se fundir num só. Deixa eu acordar deitada sob o teu peito e perdida no seu braço que sempre ficava dormente quando eu insistia que tinha medo. E não faz assim. Deixa eu chorar baixinho, encolhida num canto do sofá só para você usar essa sua habilidade de me fazer sorrir e mudar de assunto como se pudesse afogar todos meus problemas e as minhas cólicas. Deixa o dia passar, o vento leve tocar os nossos cabelos e trazer aquela sensação gostosa de que o tempo ao seu lado não passa. Deixa eu chegar na sua frente, abrir a porta da casa que podia ser a nossa, e não. Não me olha desse jeito, que me desarma, me sufoca. Não grita assim, não chora. Porque eu sei que você chora quando a gente apaga a luz do meu quarto. 

Não dá dois passos, não passa a porta, não atravessa a rua, não pega o ônibus, não vira a esquina, não desiste de nós. Não segue sua vida porque eu ainda não aprendi a seguir a minha sem você. Não deixa esses meses passarem como se nada mais fizesse sentido. Não deixa eu engolir seco, chorar, chorar, chorar e secar por dentro pra entender que você já não é mais meu e que "nós" já não existe pra você. Não, encontra outra pessoa e não acha que pode recomeçar com ela. Não sorri daquele jeito e não se torna tudo pra ela como você era pra mim. Vem cá, volta. Para com essa brincadeira de me abrir ao meio e me deixar o pó. Para de dizer que seremos bons amigos porque você não atende mais as minhas ligações. Não olha pra ela assim, não faz ela achar que você é aquele bobo apaixonado. Não reclama comigo por ser egoísta e por ter ciúme porque eu só não entendo, não quero entender, você estava aqui e agora está aí, tão perto, tão longe e tão utópico. 

Porque quando você saiu por aquela porta, você não sabia, mas me levou junto. Porque o seu perfume ficou lá em cima da minha estante, com a tampa aberta e ele me embriaga todas as noites, porque é só assim que eu consigo dormir. E eu adoraria ter forças para te explicar como são desesperadores os meus sonhos e pesadelos, não sei se porque você sempre está neles ou porque tenho sempre a certeza que quando acordar você não estará mais lá para me dizer que "foi apenas um pesadelo". Porque eu tenho raiva dela, porque eu tenho raiva de vocês, e porque apesar de tudo eu ainda quero te ver feliz. E por algum motivo eu ainda guardo lá no fundo do meu armário, numa caixa, as nossas fotografias da gente. E porque dói tanto olhar, dói tanto lembrar. E porque eu queria tanto esquecer, tudo... tudo. 

domingo, 16 de junho de 2013

Eco. Eco, frio.



"Ei, boa noite. Eu não queria assustar não. É que tava olhando de longe o seu amor. Tava olhando como, mesmo confusa você parece tão completa, tão suficiente. Eu não sei o nome dele, mas eu sei que é essa a palavra o motivo do sorriso lindo que estava enfeitando seus lábios antes de eu chegar. Não se assusta não. Eu tava achando bonito observar como você olhava pra ele e como ele olhava pra você. Eu só criei mesmo coragem pra atravessar a rua e falar contigo porque achei que não era direito meu negar de você as coisas que eu refleti sobre tudo que vi. 

Muito prazer. Eu sou um coração partido, em pequenos pedaços espalhados já não sei por onde. O vão dentro de mim é tão profundo que se você gritar daqui da porta vai achar que existem milhares de vocês aqui dentro. Um eco, eco, eco... um vazio, vazio, frio. É tão gelado por aqui, que eu acho que já me acostumei. Sabe quando dói tanto ou incomoda tanto que até adormece, pois é. Tô num sono profundo a tanto tempo que eu nem sei mais se dói de verdade. 

Mas eu não vou te incomodar mais não. Só queria falar que tava tão bonito olhar seu amor de longe que por uns minutos eu achei que fazia parte da sua história. Tão intensa e imprevisível que eu nem ligaria se fossemos um livro e eu apenas um personagem descartável, já ia ficar satisfeita só de dizer: oi, eu não tenho uma história, mas faço parte de uma, e isto, por hora... deveria bastar. 

Moça, dá licença viu? E desculpa de novo. Ah, e cuida dele. E deixa ele cuidar de você. A coisa mais triste do mundo, é ter tanto espaço para dar calor e não ter ninguém para aquecer. Boa noite viu?"


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quarta-feira, 5 de junho de 2013

Wake UP!


Para coração. Para de acreditar em tudo, de confiar cegamente, se ceder sem medo. Para de se retalhar em fiapos e se jogar ao vento justificando liberdade. Não acredita que eles entendem, porque eles não entendem. E isso não significa que não gostariam de entender, significa que emoções são sentimentos solitários. 

Não vem com essa que querer compartilhar... com esse discursinho: melhores amigos são para isso. São? Não são? Não são coração, estúpido!

Para. E não me olha assim, não enche os olhos de lágrimas porque elas não abrirão um buraco no chão para que você possa sumir e deixar toda a dor e a confusão para trás. Pelo contrário. Levanta esse rosto, toma vergonha nessa cara e larga a mão de ser burro. Tô sendo grosso sim. Tô sendo mesmo e não é pro teu bem não. Ninguém quer teu bem se você não quiser.

Começa agora a deixar essas correntes soltas no chão. Você vai conseguir se equilibrar sozinho. E se no chão você se encontrar, respira fundo, engole a poeira e levanta de novo, e cai, e levanta e cai e levanta. E se no meio do caminho cansar, senta e chora. Mas chora pra você, porque o mundo tá POUCO se fodendo.

Não tô avisando porque sou teu amigo não, e nem porque te amo. É que tá chato ter que te aturar. E uma hora a vida ia te dar esse tapa... entenda como um favor.

Com paciência,
Consciência.

domingo, 26 de maio de 2013

Dor de Choro


"Eu só preciso de alguém que me abrace e diga que entenda. Que entenda como é se sentir sozinho. Como é se sentir perdido e desamparado, sem saber pra onde está indo, por que está indo ou mesmo quem está ao seu lado. Alguém que entenda como é absorver  tudo o que sente tão desesperadamente e ser corroído por todas essas impressões, por  toda sensibilidade. Que entenda como é ter vontade de se desfazer nas lágrimas que  represa todos os dias - por medo, tristeza, dor. Alguém que vai me fazer acreditar de  novo, que vai abrir a porta desse quarto bagunçado e, ao invés de fechá-la novamente,  vai entrar, abrir suas janelas para a luz do sol e tirar a poeira de cima das esperanças,  dos sonhos, dos desejos."  
Larissa Mattos

Provavelmente já passava da hora do almoço quando ela, finalmente, fez um movimento em cima do colchão e debaixo dos cobertores. Não havia acordado naquele momento. Na verdade, tinha dúvidas até de se tinha realmente dormido aquela noite. 

Abriu os olhos com um pesar melancólico. E até com um pouco de raiva, diria. Fitou o teto do quarto que não era o seu e todas as outras coisas ao redor. Não soube de imediato dizer aonde estava mas, sinceramente, não interessava. Inspirou profundamente e sentiu um incomodo dentro do peito que, de certo não era físico. Era aquela dor de choro, sabe? Aquela agonia irritante que amarga nossa boca. 

Puxou com dificuldade os tecidos que aqueciam seu corpo e permitiu que o frio tocasse sua pele. Talvez uma maneira de compensar a outra dor. No fim das contas, não adiantou. Na verdade só piorou. Agora estava com frio e com vontade de chorar, grande merda. Mesmo assim não voltou a se deitar. Sentou-se na beira da cama e mais uma vez puxou o ar de dentro dos pulmões que pareciam preguiçosos ou talvez fossem apenas um reflexo da verdadeira vontade dela. 

Alisou as pernas como se quisesse esquentar as mãos e baixou o rosto em direção aos joelhos. Procurou forças e motivos para sair daquela posição mas definitivamente não estava afim. Correu os dedos finos pelo cabelo sujo da noite anterior e desejou ter coragem para se levantar e tomar um banho. Mas, apenas desejou. Correu a língua pelos lábios secos e mordeu o inferior, querendo inocentemente sentir o gosto de sangue, mas nem pra isso tinha forças. Olhou para o lado, levantou o dorso e esticou uma das mãos. Puxou sua fantasia e vestiu aos poucos. E devagar foi se compondo, se desenhando, se fazendo ser àquela que todos conheciam/queriam. Juntou todos os pedaços de si dentro daquele invólucro invisível e finalizou com sua máscara. Sorrindo

Era até engraçado sabe? Ela era engraçada. Não sei se porque vestia uma máscara todos os dias para sair ou se porque representava muito bem, ou se porque era realmente confusa e difícil de entender. Minha mãe sempre diz que quem muito escolhe acaba sem nada. Ou que quem quer tudo, também acaba sem nada. Ela dizia amar e gostar de todas as pessoas, no melhor e maior sentido. Mas estava sempre sozinha...sempre à mercê. Mas sei lá... ela é ela né?!

Eu só tô contando a história de uma menina que eu conhecia. Ela era triste, e sorria. 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Questão de Idade



Estaria mentindo se dissesse que nunca imaginei como seria ou como será a minha vida daqui a alguns anos. Na última semana e na atual, algumas coisas me chamaram a atenção para a maneira como, não só eu, mas as pessoas no geral têm vivido suas vidas.

A primeira delas foi quando, enquanto assistia a um filme numa aula de Jornalismo e Literatura da faculdade, me deparei com uma personagem engraçada. Negra, magra, bonita, usava roupas bem curtas e tinha uma atitude forte no olhar. Ela questionava o porquê ou como, as pessoas conseguiam passar o dia inteiro nas ruas e não olhar para o céu. Não reparar na beleza que ele, sozinho, pode proporcionar. Além disso, ela falava o quão importante é se amar. Amar o que você é e como você é antes de tudo e todos.
A segunda foi hoje. Encontrei uma movimentação diferente na internet. Inúmeras pessoas, incluindo amigos, compartilhando um texto que trazia 25 coisas para se fazer antes dos 25 anos. Eu, particularmente, li a lista com um aperto no coração absurdo. O fato é que, já tenho quase 20 e pouquíssimas das coisas que havia lá eu já fiz ou tenho pretensão de conseguir fazer. Minhas desilusões a parte, analisei as coisas que li e percebi que muitas delas são uma pura e simples questão de desligar o dublê que há dentro de você e “se ligar”. Tornar-se o protagonista.
Não diz respeito ao fato de ter ou não feito 25 anos. Vejo pessoas todos os dias, vivendo suas vidas, completamente desconectadas de si mesmas. Totalmente alheias ao restante do mundo. Sinceramente, isso me entristece, porque como eu disse, não significa ter ou não certa idade, significa: quando você vai decidir viver?  (No sentido amplo da palavra).
Daqui três, cinco, dez anos, eu não sei o que eu imagino. No momento eu só posso contar o que desejo, e desejo mesmo que os meus planos deem certo. Desejo que os números que joguei na semana passada saiam na loteria. Desejo infinitamente que aquele cara que eu beijei dois dias atrás na balada possa ser o homem da minha vida, ou não. As coisas que quero fazer também são incontáveis, quero sim, como na lista, parar de me odiar e odiar o que encontro no espelho todos os dias pela manhã. Quero conseguir manter a capacidade que desenvolvi de expressar os meus sentimentos. Quero as pessoas que amo, amigos, colegas, e até os desconhecidos que sorriem para mim na rua ou na festa da faculdade, estejam presentes no meu futuro.
Mas, antes de tudo isso quero que o amanhã chegue, e que eu tenha a oportunidade de me dizer: “hoje vou me permitir viver mais um dia”. Gosto dessas promessas de segundas que nunca se cumprem, mas sempre estão lá. (Sabe? Tipo aquelas: amanhã vou começar uma dieta rigorosa, e no final não dura nem três dias). Gosto de ainda ter um, dois, ou três, ou vários itens da lista para checar; assim a vida se torna mais longa, mais prazerosa, mais gostosa. E que se danem os vinte e cinco anos… eu vou ter quinze para sempre!

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Sucumbir


Não que fosse fácil continuar adotando aquele status, mas confesso que a zona de conforto onde me encontrava mantinha a cicatriz dentro do peito intacta e isso, por aquele momento, bastava.


Sempre tive uma mania de ter medo da vida, medo do passo seguinte. Se bem que, nem sempre na verdade. Não me lembro exatamente como começou ou de onde ele, o medo, veio. Mas no fim  instalou-se da mesma forma. Eu chamo de mania porque, embora eu não goste de admitir, eu meio que escolhi olhar de longe. Decidi ser a leitora ao invés da personagem da historia. Afinal, e você deve concordar comigo, é ridiculamente mais fácil apenas fechar o livro quando a fabula começa a incomodar e sucumbir.


Quem me escuta falar imagina o quão devastador foi ou deve ter sido viver as coisas que vivi. E embora no começo poucas pessoas colocassem fé nos meus traumas eu sempre os fiz ser muito reais. Fazia questão de gritar bem alto os nomes dos demônios que me assombravam como uma maneira de valida-los. Essa é outra das minhas manias...eu gosto de tudo que não existe. E gosto dos impossíveis também. As vezes reflito um pouco sobre esse lado meio sadomasoquista que vive em mim, mas nunca encontro as respostas que preciso, então quase sempre ignoro.

Apesar de tudo isso e apesar da melancolia que resseca o meu peito eu sou uma pessoa feliz, comunicativa, aparentemente impenetrável e ate forte em alguns momentos. Mas vou contar uma coisa: eu na verdade sou puro fragmento. As coisas que sinto e que vivo são sempre desesperadoramente incompletas, inacabadas. Por mais que em muitos momentos eu me faça acreditar que é suficiente...no fundo eu sei que o pote esta sempre meio vazio. Talvez porque a unica coisa que me permiti viver plenamente foi a dor. Ela sim, preencheu todas as lacunas do meu ser até que eu me transformasse nela e deixasse de me auto-conhecer.

Essa coisa de fragmentos é bastante subjetiva e difícil de explicar, mas posso dar exemplos. Não posso dizer que vivi o bastante para ter muito o que contar. Aliás, aos olhos de muitos, eu não vivi nada ainda. E dessa mesma forma, eu também não tive muitos amores, nem muitas felicidades. Eu trato as novidades que sinto como coisas especiais. Como cristais brilhantes e preciosos. Sempre fui assim. O mínimo de tudo se torna gigante quando toco. Por isso falo dos fragmentos. Porque só quando finalmente me consome por completo é que me dou conta do quão raso, pouco, incompleto aquilo foi. E o mais inquietante de tudo, são os buracos. Sim, porque abro um espaço tão exageradamente grande dentro do meu coração, achando que quase não caberia no peito que, quando finalmente chega ao fim, o que sobra é aquela terra seca, infértil onde insisto em fazer brotar uma flor.

Não existem muitos desses buracos em mim. Na verdade um ou dois. Um amor acabado e uma amizade partida. Mas são suficientes para tomar quase todo o terreno. E tudo isso só para explicar o porquê eu tenho medo, porquê não me permito, porquê eu sempre mantenho o meu muro de defesa a postos. Tem pouquíssimo espaço lá. Se eu errar novamente irei sucumbir em meu próprio abismo.

Sucumbir pela mania de fragmentar meus sentimentos.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Birthday Invitation



Foi engraçado como eu e o Viny nos conhecemos. Porque, diferente de alguns amores não foi amor a primeira vista. Talvez tenha sido 14ª ou 15ª. Mas no final, foi amor do mesmo jeito, e continua sendo. Não é emocionante e nem extraordinário, mas o que vou contar para vocês mudou a minha vida… 

Eu não sei muito bem como começou, mas lembro de que estávamos em abril. Mês que, na minha vida, tinha dado inúmeras voltas naquele ano. Parecia que tudo queria acontecer ao mesmo tempo.
Comoumafrasequenãoéeditadacomespaçoesemfolegovocêsemataparaentenderoqueestáescrito. Como se o mundo fosse acabar amanhã e eu ainda precisasse fazer o almoço, a janta e pensar no café da manhã do dia seguinte. Então quando tudo estava quase literalmente despencando, como uma avalanche, ele parou na minha frente, impedindo-me de cair (sem saber que o fazia) e sorriu. Sorriu com a pureza que eu já havia descartado daquele lugar. Afinal de contas, eu tenho um quê pessimista mesmo.
Eu e o Vini (:
Na verdade eu só fui entender aquele gesto mais tarde, quando, cansada, cheguei em casa e lá estava: “você foi convidada para um evento”. Era o seu aniversário. Então por alguns minutos, na frente da tela que irradiava luz, eu me permiti transitar por vários os tipos de reações: alegria, dúvidas, espanto. Se tinham três semanas que nos conhecíamos era muito. E justamente por este motivo o choque cresceu gradativamente. Mas, sempre gostei de intensidade. Aliás, é um tempero que me agrada como sal: não pode faltar. A dúvida era apenas uma: ir ou não ir? Será que convidou apenas por convidar? Será? AH!
Era oficialmente a primeira vez que saia à noite sozinha para uma festa com “os amigos da faculdade”. Estava nervosa, assustada e insegura. Pior do que não te conhecer era não conhecer o restante das pessoas que estariam lá. Aquele lado da Bela Cintra é bastante inclinado e meu salto não ajudava. Os pés já estavam latejando e eu nem no meio do caminho estava. Pensei em voltar para trás, mas já estava lá, maquiada, fodida, com vontade de dançar e de beber… então QUE SE FODESSE O RESTO. Desci.
O lugar era azul. Mesma cor dos olhos dele. Na porta, o segurança me pediu o RG e confirmou a idade que eu na verdade só completaria dali a sete meses. Na hora entendi como sorte, mas hoje acredito que foi um sinal. Entrei com medo de não te achar, porém o lugar era pequeno e você logo gritou: “Naaaaath”. E sorriu daquele jeito de novo. Me abraçou e desconfiou: “Você veio!”.
O seu perfume nunca mais saiu da minha cabeça desde aquele dia. E foi lá, naquele momento, que eu tive certeza: vai ser pra sempre.

(Publicado em: Revista Outing)