segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Acabou



Tenho tentado obstinadamente fugir de você. Durante muito tempo procurei saídas e alternativas para me manter afastado. E só de pensar na possibilidade de cruzar - por qualquer razão - contigo em qualquer esquina do meu peito, minha pele se arrepiava toda e meu estômago virava uma trouxinha de panos pronta para sair pela minha boca. 

Você tá negando agora, mas eu sei muito bem que anda me perseguindo, sim. Não começa a balançar a cabeça e dizer que não porque fica feio mentir agora. Eu te vi lá. Enquanto eu lia aquele livro, naquela festa encostada no fumódromo. Até me espiando no banheiro! Que absurdo! E sem falar naquele restaurante que eu adoro. No parque, cinema, museu, sorveteria, você não mediu esforços hein?

Às vezes eu achava que você ia surgir de alguma moita qualquer e me agarrar e me engolir sem mastigar, de tão perto que eu te sentia de mim. Mas eu apertava o passo e atrasava mais um pouco o nosso reencontro. É, reencontro. Pensa que eu não lembro? Você taí fazendo essa cara de sonsa mas sabe muito bem que eu nunca te esqueci. E tinha como?! Ei! Sem esse sorriso, por favor. 

Nosso combinado foi claro desde o começo: você iria embora e ia controlar essa obsessão por mim, para o nosso bem, lembra? Mas não adiantou. No começo até achei que tinha dado certo, deu uma sumida, se afastou, mas não teve jeito. Um dia eu estava passando por aquela rua e esbarrei com ele. "PUTS! Fudeu", eu pensei quando olhei por cima do ombro dele e vi você. Tímida. Inocente. Quieta. Tão ingênua que cheguei a acreditar que seria inofensiva, mas não...é claro que não. Naquele momento eu acho que eu tinha a chance de escolher. Mas eu não pensei muito bem. E acho que no fundo, mesmo que tivesse pensado, teria escolhido ele. Porque sempre foi ele. Desde o começo, com ou sem você. Tinha que ser ele e eu não ia poder fugir daquilo. Eu escolhi o amor. 

Tenho tentado desde então, me manter o mais distante possível. Me entregando aos mais loucos rituais para ver se alguma coisa dá certo. Esperando um amém descer dos céus e impedir qualquer aproximação. Mas foi inevitável. Você veio na surbina, sem fazer muito barulho e agora que tudo acabou, que você conseguiu mais uma vez levar de novo a confiança, a alegria, a dedicação, a força, o tempo e o amor, somos eu e você. One more time.

A dor e o coração. Uma outra vez sozinho com o sofrimento. Agudo. Pulsante. Vivo. Destrutivo. Latente e gritante. Jogados dentro de uma sala, sentados numa mesa, frente a frente, sendo obrigados a se encarar, a se observar, sentir e respirar o mesmo ar como se uma guerra fria tivesse sido declarada. Esperando quem desta vez deve ser vivo, ou menos dilascerado. 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Compulsão Alimentar



Não adianta negar. Todo mundo sofre um pouco com isso. Pode ser que não a todo momento, mas uma hora acontece, é inevitável, não adianta tentar fugir ou fingir que não é com você. Cada um de nós amarga uma coisa que eu decidi chamar de compulsão alimentar. 

É aquela necessidade de preencher alguns dos nossos sentimentos com alguma coisa. Qualquer coisa que possa fazer com que nós possamos nos sentir vivos, ou pelo menos, perto disso. Algumas pessoas preferem acreditar que esta, é uma forma pessimista de entender e reconhecer certas coisas que moram dentro da gente. Mas não tem como fugir, e eu posso te contar o porquê.  

Não importa se o que você sente é algo triste ou feliz, nós sempre iremos procurar uma maneira de realizar a manutenção dessas sensações. Mandar uma mensagem de boa noite todos os dias e receber um emoticon amarelinho sorrindo como resposta pode ser suficiente para alimentar aquela se sensação de "tudo bem, pode dormir, amanhã é outro dia". E ao mesmo tempo, quando a dor é presencial, basta uma visita na página do facebook dela ou dele. Uma foto, um perfume, até mesmo alguma cena cotidiana na rua consegue nutrir aquela sensação devastadora que vai corroendo tudo dentro do peito como um rastro de ácido. 

Você pode até dizer que não concordar comigo agora, mas, nós no fundo gostamos um pouco de saber que não somos nulos. O que eu quero dizer com isso? Quero dizer que não importa o que você sente, com o tanto que sinta. Não importa se é um sorriso ou se são lágrimas, o que importa é que lá dentro, seu sangue continua correndo, rápido ou devagar, você querendo ou não e isso, na maior parte das vezes é o suficiente para não desistir.

Eu tô falando daquela vontade absurda de ocupar cada espaço vazio dentro de algum lugar do nosso corpo ou alma que não pode, de jeito nenhum, ficar vago, porque o vazio dá medo. É por isso que quem é feliz por muito tempo não sabe o que fazer quando isso simplesmente "acaba", cê fica aí numa busca tão intensa, numa compulsão tão forte que vai comendo, engolindo, enfiando tudo que acha pela frente que pode prolongar essa sensação boa que nem se dá conta que as vezes, nem precisava mais e quando acaba o amor ou a felicidade, vira aquele apartamento frio, sujo e bagunçado, sem móveis, sem moradores, só você, o vento e a sujeira. E é por isso também que quando a dor vai embora, dá medo de sair comprando os móveis novamente, dá uma agonia de habitar, de conviver de novo. A gente custa a ceder, a dar meia volta e comprar aquele quadro pin up bonitinho que super vai combinar com a sala porque o clean parece tão mais seguro para quem já teve que reformar tudo. 

Então, não tem jeito, eu sei que não é fácil de admitir, mas é melhor se você o fizer. Eu acredito que a consciência é uma das formas mais respeitosas de felicidade ou tristeza. Quando nós entendemos como chegamos ali e como nos mantemos, tudo parece mais duro, mais rígido, porém, muito mais real e menos doloroso. Eu não acho que quem sofre ou quem é feliz tem que ter vergonha de admitir que usa coisas ou momentos bobos para manter seus sentimentos vivos, nós somos assim.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Armadura



Seja meu amigo. Preserve meu coração, me dê o direito de explorar a minha dor, a minha tristeza. Permita que meu corpo se acostume ao desconforto do sofrimento ininterrupto que abala as estruturas do meu âmago. Estou te pedindo, quase implorando para que deixe o sabor amargo durar mais um pouco.

Não se sinta a pior pessoa do mundo ou alguém incapaz de ajudar ao próximo quando eu estou escolhendo abrir meu peito e a deixar entrar. É preciso muita coragem, uma dose inexplicável de amor próprio e uma força quase desumana que não-se-sabe-de-onde-vem para estar aqui. Escolher de bom grado subir em um palanque à praça pública gritando para que as pedras sejam jogadas.

Não entenda mal. Não acho justo quando as pessoas se permitem sofrer gratuitamente, pelo simples fato de não terem capacidade e fé para enfrentar seus próprios problemas; definitivamente não estamos falando da mesma coisa. O que jogo nesta mesa hoje é uma dor permitida, uma tristeza autorizada. Necessária, ramificada, pensada e porque não dizer: minha. E só minha.

Uma vez li o seguinte: “A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido*”.

A tristeza de hoje, a minha, não tem a ver com a perca do sentido em minha vida, em meus amigos, família ou profissão. Está ligada a uma perca de armadura, uma exposição à minha fragilidade que, não se assuste, é normal. Ás vezes um pouco frequente, porém nunca tão consciente. Hoje eu não me sinto bem realmente, não há algo que possa curar a sensação de perca no espaço e tempo e a angústia que se instalou em minha garganta como um chiclete que gruda nos cabelos.

A angústia de hoje tem um gosto de aceitação, de reconhecimento da guarda baixada e dói sim, como não iria doer? Pior é ainda ter a consciência de que a mudança em uma realidade é vagarosa, cruel e egoísta. Mas deixe estar.


Seja meu amigo. Aceite minha dor, respeite meu espaço. Ouça meu choro, ou não. Dê-me seu ombro, ou não. Mas entenda. Entenda-me. Permita-me viver a minha tristeza e minha descrença no amor, nas soluções instantâneas e nas cicatrizes que não chegam aqui. “A dor precisa ser sentida”. 

*Martha Medeiros - A Tristeza Permitida 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Sua mensagem foi visualizada às 13:06


Sabe qual é o seu problema? Não admitir que tem problemas. E sabe qual é o meu? Aceitar que é “normal” que você não queira admitir isso porque de alguma forma isso faz “parte de você” e eu tenho que “te amar” como você é. Encontre o erro.

Em forma de desabafo eu quero te dizer que eu estou cansada da maneira acessória que você me trata, e eu não digo isso da boca para fora não. Foram precisos muitos dias, muitas negativas, muitos tropeços e frases como “engole esse choro” para perceber que talvez eu nem te ame tanto assim. Ou ame, mas não gosto de amar não. Sabe o motivo? Você é péssimo. Você tem sido primorosamente péssimo.

Eu acho tão feio quando as pessoas fingem se importar com as outras, mas tão feio que se você soubesse apenas 1/8 disso, jamais pensaria duas vezes antes de tentar fazer isso comigo. Eu não acho que deva ser exclusividade sua, ou da sua personalidade essa mania de achar que todos são como você. Que querem uma barreira segura entre o “você não está bem mas eu não vou perguntar” e o “você não está bem e eu quero te ajudar”. Não, as pessoas, algumas delas, não são assim. O choro é livre.

Mania ridícula essa de esperar alguém pisar no parapeito para cogitar estender a mão sabe? Escroto isso. Eu odeio sinceramente todas as vezes que você decide abrir a sua linda boquinha para fingir uma preocupação forjada, vazia e cheia de nada. Vocês são assim, no primeiro momento se sentem culpados por não estarem realmente se importando e vão lá dar um jeitinho de arrumar a merda. No segundo momento cansam dessa brincadeira e deixam pra lá. Simplesmente ignoram. Varrem para debaixo do tapete. Como se isso pudesse de alguma maneira ajudar né. Pois fique sabendo, não ajuda, só joga a merda toda no ventilador. Nada é pior do que tentar escalar uma montanha contando com uma mão que será recuada no meio do caminho.

Eu estou imensuravelmente cansada. Tão exausta, que se fossemos uma foto, eu queimaria nós dois ou rasgaria no meio, só para cortar a ligação. Para deixar a conexão se perder por aí. Experimentar um pouco o que é essa coisa de não ligar pro outro. E olha, não vem com esse “discursinho” de que nem todo mundo se importa mesmo e as pessoas não são obrigadas, pois você sabe do que eu tô falando. E se não sabe, bem, você é pior do que eu imagino.

Eu desisto dessa brincadeira de “aceitar o outro como ele é” por um “bem maior” ou por um “amor de verdade”, cansei. Porque a verdade é que ninguém nos aceita como somos e hello, continuamos nossa vida lindos e maravilhosos. Acontece que diferente de pessoas como você, eu realmente me importo, eu realmente me sinto um acessório que você usa quando quer, na hora que quer e que convém, e quando não convém mais... ops, desculpa você é a última da fila, já já nos falamos.

Você visualizou essa mensagem há 16 horas. Ontem eu te amava assim, mesmo não gostando desse jeito “não me toque” ou “vou te tratar como eu quiser porque sim”, hoje, tô te achando um merda. E não sei não se te amo ainda.


Ah! E se te interessa saber, eu não tô bem. Beijão.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

18 dias de Junho



Um dia, sete horas, vinte e três minutos e quarenta e dois segundos. É segunda feira. Aquelas típicas, com gosto amargo e céu cinzento. Cenário comum em uma cidade maluca como São Paulo. Eu preciso trabalhar, mas ainda falta muito tempo para sair de casa. Então eu sento na cama e começo a pensar aceleradamente em coisas que possam tomar o meu tempo até lá, já que sei que se deitar agora não me trará o sono de novo e só vai tornar uma máquina de imagens suas em movimento. Então acho que é uma boa ideia começar uma faxina em meu quarto. Pés no chão gelado, luzes acesas, janelas abertas e a playlist de músicas de balada no último volume.

Cinco dias, doze horas, trinta e seis minutos e dois segundos. Todos estão animados dentro do ônibus. Seus semblantes denunciam que hoje provavelmente é o melhor dia da semana para todo mundo: hoje é sexta feira. Meu estômago está doendo. Sinto como se meu corpo fosse uma folha de papel dentro daquela máquina de chacoalhar. Tento me manter em pé sem esbarrar em ninguém mas parece uma tarefa impossível. Estou com os meus fiéis fones de ouvido criando uma barreira entre eu e o resto do mundo. Mas não é uma boa solução quando o objetivo é me isolar de você. Que dor no estômago, inferno.

Onze dias, quinze horas, cinquenta e oito minutos e vinte e quatro segundos. O trabalho parece o melhor lugar para estar. Sinto que ao menos durante algumas horas do dia posso tirar os fones sem medo de me encontrar com uma imagem sua na próxima esquina. Posso sorrir sem precisar lembrar que não tenho motivos para isso. Tenho permissão para conversar com as outras pessoas sem o compromisso de perceber que não nos falaremos durante à noite. E finalmente, lembro que estou há várias horas sem comer e acabo cedendo à qualquer bobagem que encontro pela frente. No fundo eu sei que é só por isso mesmo que eu ainda não desmaiei fraco pelas ruas.

Quatorze dias, vinte horas, seis minutos, e trinta e sete segundos. Modifiquei a playlist do celular para uma que dei o nome de “The funeral”. Não tenho medo e nem vergonha de chorar andando sozinho pela calçada. Eu percebo que as pessoas se sentem diretamente atingidas. E mesmo não demonstrando, acho engraçado. Ninguém gosta de ver outra pessoa chorar porque não sabe como lidar com a dor e o sofrimento alheios. Então, ao mesmo tempo em que elas me olham, elas desviam o olhar tentando de alguma forma, de alguma maneira se proteger da minha angustia. Porque este é um tipo de sentimento com aspecto contagioso.

Dezoito dias, uma hora, cinquenta minutos e cinco segundos. Não consigo dormir. Estou praticamente fritando na cama como se fosse um pedaço de guioza. Meu corpo está quente e dolorido. No peito uma sensação estranha de aperto e uma falta de ar que com certeza é do resfriado que acabou me pegando essa semana. Acho que estou com febre. Abro a bolsa, procurando um remédio relaxante muscular ou qualquer coisa do tipo. Sento na cama esperando que em algumas horas algo faça efeito. Neste tempo, você aparece, me sufoca, me afoga e me mata de tanta saudade, de tanta dor. Choro como eu nunca chorei em toda a minha vida e percebo que já é hora de acabar.


Um dia, oito horas, zero minutos e zero segundos. Hoje é segunda-feira, faz 30º lá fora eu estou escolhendo viver sem você. 

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Ela



Tem pouco tempo que eu comecei a fazer as coisas sozinho. Coisas bem bobas que na verdade eu nem lembrava mais como funcionavam depois que você apareceu por aqui. Uma delas era ir ao cinema. Essa semana por exemplo, eu tava ali na Avenida Paulista e deu vontade. Entrei, comprei um ingresso e esperei uns 20 minutos para a sessão começar. Antes de entrar na sala, fui ao banheiro e também tomei um café. Tava frio pra cacete.

Não tinha muita gente por lá, na verdade, além de mim, esperando para a sala abrir tinham mais duas idosas, uma mulher de óculos concentrada na leitura de um livro que eu não lembro o nome, e um grupo de adolescentes que provavelmente haviam acabado de sair da escola ou da faculdade e iam entrar só para dar uns beijos no escuro mesmo. Achei engraçado.

A sala abriu. O atendente verificou minha carteirinha de estudante e carimbou o ingresso. Eu entrei, sentei no meu lugar e esfreguei as mãos, tava realmente muito frio naquele dia. Naquele lugar. Não demorou muito para o pessoal vir e se acomodar também. Um, dois, três, quatro casais se espalharam por ali bem longe das luzes. As velhinhas sentaram lá na frente e cochichavam sem parar. Tive a impressão de que elas falavam sobre uma ou outra barbaridade que viram no noticiário na noite anterior. Todos se acomodaram e as luzes se apagaram.

A bem da verdade é que eu nem li o nome do filme. Eu não sabia o que ia ver, nem quem estava no elenco, e muito menos havia visto algum trailer na internet. Na real, eu só pedi um ingresso meia para a próxima sessão. E lá estava eu, pela primeira vez em algum bom tempo, sozinho em um cinema no coração de São Paulo. Cruzei os braços e olhei para a tela.

Quando o filme acabou eu não consegui sair do lugar. Enquanto as letras subiam e as pessoas começavam aos poucos ir embora, eu me mantive ali, estático, paralisado. Sentindo como se mil e uma coisas rodassem a minha cabeça.  Foi ali, naquele cinema, sozinho, paralisado, que eu me dei conta que você tinha morrido dentro de mim. Eu olhei para o lado e não encontrei nada seu, seu perfume, sua presença, seu sorriso, sua mão na minha nuca, nada. O que eu encontrei foi um reflexo do meu coração, uma miragem da minha alma me mostrando que pela primeira vez em um ano e seis meses eu estava sozinho de verdade.

O filme se chamava “Ela” e falava sobre um cara que se apaixona por uma inteligência artificial. Por algo que não existe. Quer dizer, a gente até fica na dúvida se existe ou não. O filme que eu vi, tava falando de mim, falando da gente. Pela primeira vez em um ano e seis meses eu me perguntei se a gente foi de verdade; se você realmente me amou; se estava ali e se em algum momento da minha vida, eu ia conseguir seguir sem você.

Pela primeira vez em um ano e seis meses, eu tô aceitando que você não me fez bem e que quando alguma coisa morre dentro da gente, um pouquinho de nós morre junto. Naquele dia, eu só fui embora quando a moça da limpeza me balançou e disse: “Moço. Tem que sair da sala viu? Vai começar outro filme!”. E eu tropecei até a saída. Naquele dia, eu me dei conta que eu precisava deixar você ir, e que só assim, você me deixaria também. 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Doente de você



A falta que eu sinto de você é tão contundente quanto uma faca que corta a pele, que perfura a carne e faz sangrar o corpo. É como estar tão perto e tão longe do sol. Como se os raios jamais fossem suficientemente quentes para entregar ao corpo a sensação de bem estar e de aconchego que eu preciso. 

No momento em que você está ao meu lado é também o momento em que eu me sinto mais sozinha, mais perdida e confusa. A sua presença me faz ter surtos e delírios passageiros. Enjoos, desejos, pequenos surtos, grandes dores e alguns espasmos que eu, com alguma prática, até que aprendi a disfarçar e a controlar muito bem. Mas sei lá, se um dia quiser ter certeza, só repara. Repara na desconexão do meu sorriso com meus olhos; na minha voz gritando no silêncio que eu não estou bem e que a qualquer minuto, qualquer dia, você vai acabar me matando com esse excesso de você. 

Do seu lado eu me sinto menor, um pequeno grão de areia, vulnerável, insosso, incapaz, incolor, menosprezado e finalmente, rejeitado. Quando sinto o seu abraço, é como me atirar em um abismo do limbo, onde o fim é exatamente a eternidade da queda na escuridão. Com você, são sempre tiros no escuro que de um modo ou de outro voltam à partir meu coração e me deixar à mercê dessa falta, dessa necessidade que eu desenvolvi de você, sabe? 

Eu teria ido embora se você pedisse sinceramente sabe? Se você de uma vez por todas pudesse ter a coragem de dizer que eu não te faço bem e que a gente vai acabar matando um ao outro com todo esse sentimento inacabado, incompleto, depositado de modo errado em alguma esquina do meu coração. Eu juro que por você, eu teria recolhido da a minha esperança, todos os cacos da minha felicidade e todo esse amor doentio, colocado tudo em uma pequena sacola de panos e ido embora. Não sei bem para aonde, mas à uma distância segura de nós. Do que nos tornamos, do que somos, do que estamos. 

O seu problema é gostar muito mais de nós do que de mim. E o meu problema é gostar muito mais de você do que de mim. No final das contas o saldo está sempre negativo. E a gente finge, a gente tenta fingir que tudo bem porque no mês seguinte a promessa é destinar o valor da dívida ao lugar certo, mas nós não somos assim e os juros vão nos consumindo a cada minuto um pouquinho mais.

Eu tô sentindo a sua falta enquanto você senta ao meu lado no cinema. Sinto a sua falta enquanto você me puxa para dançar, quando jantamos ou tomamos café juntos. Quando você dobra a esquina e sorri para mim, quando sua boca toda minha pele, quando suas mãos percorrem as minhas, quando os nossos olhos se tornam apenas um e um riso bobo enche o ar de uma falsa alegria. 

Eu sinto a sua falta porque eu tô doente de você. 

Olha, se você pedir... eu vou embora. Mas eu tenho uma mania de querer curar uma dor com outra dor então, me conhecendo, eu acho que vou ficar mais um pouco. Vou sentar, tomar um café e deixar seus outros amores brincarem comigo e com meu peito que já está até inchado de tanto prender a respiração. 

Eu sinto sua falta... mas não quero que você fique. A gente sabe. A gente sempre soube.

A gente precisa aceitar. 

domingo, 18 de maio de 2014

Prelúdio de Morte



Querido você

Eu queria poder afirmar que esta é, definitivamente, a última vez que lhe escrevo. Mas, como já deve imaginar, eu me conheço bem demais para ter a consciência da minha "instabilidade", então acho que devo começar dizendo que, eu ESPERO que essa seja a última vez que eu lhe escrevo. E por favor, não se sinta chateado, ou magoado por isso. Eu até que, querendo ou não, gosto de lhe escrever. Sinta-se chateado e magoado por todo o resto. E eu espero mesmo que sinta-se, porque não será um décimo de como eu realmente me sinto agora. 

Querido você, isto, é uma carta de adeus. Uma clichê, comum e boba, carta de despedida. E eu vou poupar o seu tempo pensando e adiantar que eu não irei embora literalmente, embora na real eu quisesse ter essa coragem. Na verdade, eu vou embora em todos os outros sentidos. 

Olha, hoje de manhã eu acordei e te chamei pelos quatro cantos da casa. Você não estava lá. Ou só não quis me responder, como você sempre faz, não é mesmo? E não, eu não me acostumei com isto, porque resposta para mim é uma questão de educação e não um "eu te amo" velado como eu imagino que deve passar pela sua estúpida, limitada e preguiçosa cabecinha. Mas tudo bem, eu ignorei, como sempre fiz na maior parte das vezes. Pelo nosso bem, pelo meu bem, afinal eu já tomo venenos demais em relação à você. 

De repente eu me vi sentada no sofá pensando no porque eu estava ali e se estar ali era realmente algo que eu queria, ou pior, se era realmente algo que me fazia bem. E como num filme, tudo pareceu agir em slowmotion e eu pude reviver, claramente, o quão sozinha eu sempre ficava quando você estava por perto. Quer dizer, era como se você fosse um eclipse na minha vida. Além de me cegar, ainda tinha a coisa do frio. Da dor, da angustia, da velação, do visceral. 

Maldito você, eu te odeio. Eu te odeio muito. Por todas as vezes que eu chorei sozinha nos cantos e você simplesmente fingiu não me ouvir. Por todas as vezes que você disse que me amava e realmente nunca amou. Por nunca querer estar por perto quando eu realmente precisei. Por achar que eu só servia quando estava plenamente feliz (ou fingindo estar). Eu odiei você no momento em que o meu coração decidiu que te amar seria uma boa ideia. Eu te odiei cada vez que a sua boca tocou a minha. Eu te odiei todas as vezes que o seu corpo esquentou o meu lençol e se recusou à esquentar o meu coração. Odiei ver você sorrir e acenar para todas as outras pessoas e não para mim. Ver suas fotos. Sentir o seu cheiro. Estar perto. Conhecer você. Maldito. O. Momento. Em. Que. Eu. Te. Conheci. 

Não fique assustado, querido você. Eu percebi tudo isso à tempo que manter nós dois seguros. Eu segura do meu coração e dos meus impulsos e você seguro de mim. Quando você ler esta carta eu provavelmente já estarei bem longe. Vivendo todos os dias da minha vida que eu deixei de viver para viver os seus dias. Vivendo um pouco mais de mim e matando um pouco mais de você, aqui dentro, do meu peito, da minha alma... que tão se machucou em toda essa história.

Com ódio, amor e carinho, eu. 

sábado, 19 de abril de 2014

Henrique Pt. III




E eu até acho que o fato de não amar Henrique foi o que me permitiu estar com ele hoje. Sim, porque eu tenho repulsa desse sentimento nojento chamado "amor". Fora o meu pequeno trauma aos meus nove anos, já deve ser óbvio que minhas experiências "amorosas" não foram lá o que a gente pode chamar de conto de fadas. Na verdade eu acho que passaram bem longe disso mesmo. Mas não importa, o que quero que saibam é que este rapaz que aqui estava há menos de dez minutos é a minha cobaia, e não, eu não sinto nenhum tipo de culpa, remorso ou mesmo peso na consciência por isto. 

Vocês já me acham a pior pessoa do mundo? 

Bem, deixa eu falar um pouco sobre o Pedro Henrique. Sim, é o nome dele. O Rick é fotógrafo. Talvez outro motivo para eu ter escolhido ele. Trabalha com fotografia artística, e eu o conheci um dia desses enquanto não pensava em nada caminhando por um parque no centro da cidade. Quase como uma cena de filme. Ele surgiu de trás de uma árvore com aquela lente maravilhosa e através dela me despiu com um click. Depois disso, o básico, telefone, jantar, sexo e café. O problema é que o rapaz é apaixonado. O sangue dele corre pelas veias em 240ºC e a 8km por hora, porque ele gosta de ser intenso aos poucos. 

Henrique é o cara que vai pagar a sua conta do bar e segurar o seu cabelo quando você der perda total. Ele é o cara que vai te dar espaço na cama e vai desistir de puxar o cobertor só para que você não sinta frio. Ele não vai acordar mais cedo para te fazer café da manhã porque ele não quer perder um minuto sequer do seu rosto enquanto dorme e pra ele, tomar café em casa tira todo o tesão de caminhar pela calçada em uma manhã ensolarada de final de semana. Ele vai aceitar ver aquele filme de comédia romântica detestável, não porque ele quer te agradar, mas porque estar com você com ou sem esse filme tanto faz. O Henrique que eu não amo não é rico e fará anéis com o lacre do pão de forma para te pedir em casamento. E ele vai te fazer rir, mais do que tudo, ele vai te fazer lembrar o que é ter um amigo, alguém para tomar banho de porta aberta. Ele fará o seu coração pulsar. 

O problema é que eu não sou essa pessoa. Eu não sou quem o Henrique precisa encontrar e muito menos mereço quem ele é. Tudo porque esta roupa que ele oferece não me cai bem e eu sempre gostei mesmo é de andar nua por aí. É tão difícil de entender? 

Mas a verdade é que eu me tornei muito boa em descobrir, vasculhar as pessoas. Pouquíssimas vezes me impressiono com alguma história e tenho muita facilidade em despir quem se propõe a ser minha cobaia. Para mim, sempre foi bastante simples ter um coração batendo, pulsando na palma da mão, gritando na ponta dos meus dedos. E eu confesso que a minha tentação passava muito além da maldade, porquê as minhas unhas acariciavam aquela presa ingênua que poderia sangrar a qualquer momento apenas com uma fechada de punho.

Me tornei muito boa em ser aquilo que já foram param e simplesmente desaprendi a manter a guarda baixa quando não há perigo. Desaprendi a tirar os sapatos para sentir a grama fresca entre os dedos. E por tudo isso eu acho divertido ter o coração de Henrique em minhas mãos.  

É eu sou a pior pessoa do mundo.