sexta-feira, 20 de março de 2015

Laringe



Para ouvir ao som de: Okinawa - SILVA 

Sempre gostei de guardar todas as minhas coisas. Principalmente as materiais. Em especial aquelas que me remetiam à algo ou alguém. Minha mãe me chama de guarda-tralhas mesmo depois dos meus vinte anos e ainda assim, não consigo me incomodar ao ponto de me livrar destes fragmentos de lembranças. Contudo, se existe algo que não consigo guardar são sentimentos. Quem me conhece sabe da minha teoria da corda bamba. Não faço show para pouca platéia e nem gosto de andar em corda bamba. Não subo no picadeiro se não for para voar e não desço se não for para viver. 

Outro dia vi um símbolo engraçado, te perguntei o que era e você me explicou que representava a nossa laringe. A nossa capacidade de não guardar as energias em nossa garganta. A necessidade de colocar tudo para fora, expressar o que sentimos mesmo que não seja tão bonito. Mesmo que não seja feliz. Eu acho que desde que me conheço, sempre fui melhor escrevendo do que falando, do que vivendo, do que qualquer outra coisa. As palavras são amigas, confidentes e apoios morais e psicológicos. E é por isso que não sinto peso e nem pudor em dizer que sinto a sua falta. 

No meu copo sempre mais cheio e no meu lado sempre mais 80 do que 8, você se encostou de leve, como quem não queria nada. Criou sem saber um vínculo enérgico de algo que, ainda não sei que nome tem, mas que se assemelha muito à qualquer sentimento que se deixe envolver pela palavra reciprocidade. Acordei esses dias procurando suas costas para deitar meu rosto, seu cheiro pra guiar um rastro e a sua voz pra acalmar as batidas do meu coração.

Sinto uma falta doce, aveludada, paciente e amigável. Uma falta bem vinda, de um espaço que embora fique vazio boa parte do tempo, sobrevive na expectativa e na certeza do preenchimento temporário. Daí que você pode até nem perceber, mas eu gosto de você. Mesmo viu? E fico procurando na minha sede incontrolável pela expressão, maneiras de entender em que parte daquele caminho a gente resolveu sintonizar. 

Sofro de uma ansiedade absurda, ousada e insistente. Sou daquelas que lê as últimas cinco páginas do livro antes mesmo de chegar no meio dele. Vou na frente pois tenho pressa da vida. E sempre foi assim, até agora. Já que agora, é outro tempo. Você com seu jeito sereno, aparece sempre como uma brisa leve para bagunçar meu cabelo. Vem cantando seus mantras que sempre me recolocam no lugar e eu fico aqui, como aquela cara de boba que você já conhece bem. E é por isso que me assusto tanto quando, meu copo está transbordando e você, com a habilidade de um barista, simplesmente me oferece um copo maior, para eu conseguir ser mais, sentir mais, viver mais. 

Você me agradeceu outro dia por te fazer seguir mesmo quando acredita ter chegado a um bom resultado, mas na verdade foi o contrário. Você me faz seguir por uma estrada escura, (que eu achei que era o fim da linha) e todo dia me faz descobrir que depois do escuro tem luz. Tem paz. Tem você. Tem algo com a gente. 

Eu acho que nunca vou conseguir controlar as coisas que digo. Nem as que sinto. Muito menos as que penso. E o que eu penso agora, é que bom que eu não vou conseguir nunca controlar, porque assim sei que é do meu real que você gosta. É nesse real que você acredita. E é esse meu real, misturado ao seu, que faz ser assim... único. Porque no final, tudo vai dar certo. Aliás, já deu! Lembra?