quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Retórica do desespero





Você me segurou pela mão e apertou de leve, fazendo um arrepio tímido subir pela minha nuca. Passou meu braço ao redor da sua cintura e no instante seguinte já me sentia viciada pelo cheiro dos seus cabelos escuros e bem mais curtos do que eram quando te conheci. Sua pele branca era macia como eu sempre imaginei que fosse, porém ainda mais. E os seus lábios rosados insistiam em sempre aproximar-se demais do meu rosto causando um verdadeiro redemoinho no meu peito, onde certezas e incertezas misturavam-se homogeneamente. Em qual parte dos meus sonhos você tinha se perdido mesmo? Uma sensação esquisita. Era basicamente o que sentia. Como se os meus pés não estivessem tocando o chão e eu tivesse perdido todas as  armas, aquelas que criei para me proteger de você e que simplesmente deixaram de existir quando sua voz ecoou dentro de mim, e a ouvi dizer baixinho "calma, é só um abraço". O meu corpo tremia e a cabeça girava tão rápido que tive a impressão de que perderia os sentidos a qualquer momento. Calma? 

Quantas vezes? Quantas vezes você me pediu para não voltar. Para esquecer o passado? Mas quando os seus olhos encontraram os meus foi inevitável aquele mergulho. O azul no qual eu me encontrava lembrou o oceano e nesta altura as ondas já haviam me arrematado. Pude ver nele toda a minha vida, e como você conseguiu habilidosamente colocá-la de pernas para o ar. Até hoje me pergunto, como? Por quê? Onde eu realmente estava quando precisei de mim? E a resposta parece doce, estava amando.

"Você não é mais a mesma" você disse. Desde o começo da conturbada história, aonde eu e você deixamos de se protagonistas, me coloco no lugar de uma espécie de massa, absolutamente moldável, flexível, disposta a ser como e o que você desejar, desta forma preciso concordar com sua afirmação. Não era mais a mesma todos os dias, pois a cada maldita manhã fazia questão de engolir as suas verdades e esconder as minhas, acreditando que eu não fazia nada além de tão somente estar amando. Muito mais a você do que a mim, percebo hoje. Porém infelizmente não foi a tempo e acabei sufocando tudo que com tanto amor e obsessão havia construído e você como já não fazia parte das páginas da nossa história me acordava violentamente me fazendo crer que pequenas paixões e a então monogamia são e não são por excelência a sua essência.

Um verdadeiro labirinto se abriu dentro do meu peito e eu, cega de dor e de amor sentei ao meio dele, o mais perdida possível para escrever uma retórica, a retórica do desespero, do sufoco, da angústia, da sede, da fome e da morte tão silenciosa e agonizante, ainda podendo enxergar a beleza naquilo e dedicar cada lágrima de sangue, cada grito não dado e cada beijo roubado a você, meu amor. Por ele caminhei tanto tempo que esqueci que nele estava e que procurava uma saída. Então o pior chegou: a acomodação. Não se deve acomodar a dor e nem se contentar com os erros, no meu caso foi engraçado, pois a dor acomodou-se a mim e os erros... Bom, uma história a parte eu diria. Convivia com ela tendo a certeza de que a melancolia nos lábios era algo puro e que fazia parte. Você havia partido e a minha música tocava a procura de alguém que pudesse dançá-la.

O tempo correu cruelmente, como sempre, e aos poucos fui, sem perceber, saindo daquele lugar escuro e frio onde as cores eram basicamente pretas e brancas e onde você era um fantasma. Voltar foi dolorido, não queria te deixar lá, mas precisei e quando finalmente vi minha garganta livre da angustia e do aperto que sua lembrança me provocava sua presença tomou conta das nossas páginas novamente, como um furacão que vem devastando tudo que vê pela frente, desmontando todas as peças que tanto custei a colocar no lugar. E então você disse: ‘Estou aqui não estou?’ E respondi: ‘Finalmente’, ainda não acreditando. O desespero cessou e o seu sorriso foi fotografado pelos meus olhos. E agora, embora acredite na contradição involuntária, apesar de tudo e ainda assim não me vejo fazendo nada além de tão somente algo doce: amar.