terça-feira, 15 de outubro de 2013

Centelhas


Hoje ela acordou e sentiu que precisava de uma vez por todas se sentir bonita. Precisava finalmente (ou não), determinar o que iria determinar a sua autoestima. Então ela foi ao salão de beleza, cortou os cabelos, fez as unhas, desenhou as sobrancelhas e até se depilou. Foi tudo para ela. Cada centavo e cada centelha de autoconfiança que depositava em si própria.

Depois de lá, foi até uma loja de “tamanhos especiais” e usando algumas dicas de blogs e blogueiras que lia ou seguia, montou um look que achou adequado, moderno e a fez se sentir sensual. Na calçada seguinte, um par de sapatos fabuloso e um perfume de tirar o fôlego de qualquer um.

Era sexta feira e a oportunidade estava ali. Sentia-se quase renovada, como se algo dentro dela houvesse enfim despertado e uau, em muito tempo era a primeira vez que ela ela realmente se achou bonita diante do espelho. Sentiu-se atraída por si mesma e repetiu “Nossa, você está maravilhosa”. E com essas palavras tomou o rumo da noite.

Encontrou 2 ou 3 amigos e decidiram depois do barzinho que seria uma boa discotecar. Ele estava lá. Sempre esteve e tinha a impressão de que estaria por mais um bom tempo. Bons amigos, um papo tranquilo, fluíam com muita facilidade. A noite estava quente e o álcool no sangue de todos animou tudo mais um pouco.

Desceram a rua Augusta cada um com sua lata em mãos. Rindo alto e esquecendo que o dia amanheceria dali algumas horas. Escolheram o lugar e pronto! Mais latinhas, mais risos, dancinhas engraçadas, dancinhas sensuais. Ele continuava lá. Ela queria que ele pudesse sentir o seu perfume, tocar em seu cabelo, notar como sua pele estava lisa. E ele o fez. Encontravam-se na pista de dança e deslizavam-se um no outro, mãos, braços, costas, peitos, rosto. Ela sentia como se estivesse na beira de uma escada, faltando apenas um degrau para chegar ao céu. E de repente ele não estava mais lá.

Quando a consumação acabou, foi como quebrar o feitiço. As luzes não piscavam mais tão alegremente. Ao contrário disto, elas brilhavam com uma força insuportável.  A música boa mantinha o ambiente fervendo. E ele continuava lá. Então ela percebeu, ela se deu conta, de que ele continuaria lá, mas não do jeito que ela esperava. As pessoas tem esse costume absurdo de fazer promessas “de segunda-feira” querendo que o mundo possa mudar em um estalo de dedos. As pessoas também repudiam o termo “a longo prazo”. Ele não seria dela essa noite. Hoje ela estava se amando porque queria ser amada, porque achou que poderia ser amada. Mas quando a noite acabou e a carruagem virou abóbora, ela voltou a ser a gata borralheira.


E era assim sempre. Centelhas de dias felizes. Desejos inibidas. Um “querer mais” velado e uma vontade insuportável de ser amada. 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Henrique Pt. II



Ele está se movimentando na cama. Enrolado nos meus lençóis. Rapidamente minimizo a janela do word. Não que eu tenha algum problema em deixá-lo ler a história. Até porque, tudo que já escrevi até aqui é a mais pura verdade e de alguma forma, sei que ele, no fundo, também sabe disso. Abro um sorriso amarelo quando ele me fita. Estou sentada na cadeira com um pé apoiado no acento e o queixo sob meu joelho. 

— Bom dia. — digo 
— Bom dia Babi. — responde ele sorrindo antes de procurar pelo relógio no pulso e perceber que é hora de ir, embora seja sábado. 

Confesso que eu mesma não percebi o dia amanhecer. Acho que já passava das 7 da manhã. Mesmo sendo cedo, sei que Henrique tinha milhares de coisas para resolver no dia e é claro que, eu não me importava. E então fiquei ali, assistindo ele se levantar e se vestir enquanto comentava o quão boa havia sido a nossa noite o quanto aguardava pela próxima vez. Fico enjoada novamente. 

— Eu ligo para você mais tarde ok? — diz ele tomando um gole do café já frio. — Argh! Babi!
— Desculpa! Estava pesquisando umas coisas para a faculdade e esqueci de beber. — respondo afastando a xícara de perto dos dedos dele. 

Ele se inclina e me dá um beijo demorado. Não faço a menor questão de sair da minha posição. Na verdade, o maior movimento que me dou ao luxo de realizar é levar uma das minhas mãos até sua nuca e afagar de leve seu cabelo. A sensação continua sendo a mesma que a da primeira vez. Ou seja, quase nula. Mas devo dizer que uma pequena parte de mim resiste e tenta a todo o instante me mostrar algo que eu já deveria ter percebido. Tenta me fazer entender que, se eu quiser, ele estará lá, e que isso me faz bem, porque ele me quer bem. Trato de afastar esses pensamentos assim que ele me dá um último selinho. E sorrio fazendo-me parecer chorosa pela despedida. Henrique atravessa a porta e a fecha em seguida. 

Neste momento estou apoiando os cotovelos sobre a mesa e esfregando minhas mãos em meu rosto. Quem é você? Penso. Abro novamente a janela do word e antes de digitar uma palavra sequer, puxo uma gaveta embutida na mesa e pego uma cartela de cigarros. Arrasto a xícara de café novamente para perto e acendo o primeiro cigarro. O deixo queimando junto aos lábios e volto a escrever. 

Eu acho que sou uma pessoa difícil

E também acho que seria injusto continuar essa história sem falar um pouco sobre mim e sobre quem eu sou, ou pelo menos quem eu suponho que sou. Ah e não que tenha muito a ser dito, não. Mas bem, devo começar dizendo que não me lembro de ter tido muitos relacionamentos. E quando digo isso, não falo de "namorados" em si, mas de envolvimentos com outras pessoas. Envolvimentos reais que falem de sentimentos e essas coisas. Se precisasse listar, talvez pudesse contá-los nos dedos de apenas uma mão. Isso é realmente um pouco frustrante as vezes, mas na maior parte do tempo lido bem com a situação, e em momentos melhores, nem me lembro pra falar a verdade. 

O meu primeiro amor surgiu quando eu tinha 9 anos. Um pouco tarde eu acho, ou não. Tem gente que morre sem saber se amou alguém ou não. Mas enfim, eu tinha 9 anos e ele tinha 10. Estudávamos na mesma sala e bem, é claro, éramos, ou nos tornamos, melhores amigos. Eu achei que, conseguindo sua confiança e o seu carinho, depois seria mais fácil chegar no momento em que lhe daria um beijo escondido em um canto escuro da escola. Obviamente isso não aconteceu. Amigos demais. Eu esperei um dia todos irem embora até que, na sala, só ficássemos eu e ele. E então eu lhe contei tudo. Ele ficou constrangido, segurou minha mão e disse olhando em meus olhos: "Babi, olha... Você realmente não faz o meu tipo. Mas tenho certeza que faz o tipo de alguém." e sorriu. Eu nunca mais me declarei para ninguém. 

Os outros amores foram quase como esse, mais o que realmente precisa ser dito é que nenhum deles terminou bem, afinal terminaram, não é? E eu tenho essa coisa do "término" muito fixa na minha mente. Eu sinto que nada que é bom e termina, pode ser bom de verdade. Eu tinha uma explicação melhor para isto mas, confesso que estou com preguiça agora. O importante é lembrar que sempre foi assim. Eu nunca apresentei ninguém aos meus pais, nunca houve uma foto minha e do meu namorado/namorada sob a minha estante e eu nunca tive para quem dar presentes no dia dos namorados, essa é a verdade. E eu não sou uma pessoa pior ou melhor por isto, que fique bem claro. 

Então, diante de toda essa situação, durante a maior parte da minha adolescência e em alguns dias atuais, eu me questiono se há algo em mim diferente, diferente no mal sentido. Quer dizer: porque as coisas simplesmente não acontecem, ou acontecem assim?. Tá na cara que nunca achei uma resposta.  Mas achei hipóteses. 

Eu tenho muitos amigos. Colegas, conhecidos. E não tenho nenhum problema em partilhar minha vida particular com eles. Nunca tive eu acho. Sou o que as pessoas chamam de "livro aberto" e ainda não vivi o suficiente para ter certeza de que isso é bom ou ruim mas, atualmente, não importa. E então, como sou uma pessoa transparente, é fácil para quem está ao redor sentir-se livre para opinar. Deve estar claro que eu questionei essas pessoas sobre o que elas achavam de mim, ou que elas achavam que eu deveria fazer. E eu tenho uma preguiça ainda maior em dizer todas as respostas, mas vou resumir todas elas em pouco mais de uma linha: "Você deve se dar uma chance, dar uma chance às pessoas. Precisa deixar que elas enxerguem quem está aí dentro, precisa baixar a guarda". 

Ai meu Deus, eu estou invisível

Fim. Esta sou eu. E é por isto que estou com Henrique. Sim, eu lhe dei uma chance, e me dei uma chance, mas eu preciso lembrar, que ele, é um amor que eu inventei. Ele é a minha ficção. Ele é a mistura da minha expectativa e da minha realidade. Eu amo não estar sozinha, mas eu não amo o Henrique. 

Continua...






quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Henrique - Pt I





Tenho a impressão que lá fora, o mundo inteiro ainda está em suas camas, confortáveis, em algum lugar afastado da realidade cruel e nojenta na qual vivemos. Porque o sono nos dá isso, ele tem a capacidade de te transportar para onde e quando você quer e prefere ir. É claro que, pesadelos são uma exceção, mas não vou falar deles na minha história. 

Na minha história eu vou falar de mim, e dele. Mesmo que eu tenha a impressão que isso só significa, definitivamente, falar unicamente dele. 

Neste momento na minha mesa, além do meu notebook, tem também uma xícara de um café que eu nunca vou beber, mas, como eu gosto do cheiro e como foi ele quem fez, eu resolvi esquentar e deixar aqui do lado, para ver se me dava alguma inspiração. Embora a maior delas esteja um pouco mais a frente, jogado na minha cama, dormindo como se todos os problemas do planeta pudessem ser esquecidos, por uma noite, por um dia. Sorrio, ao pensar que, obviamente ele não resolveu e nem pode resolver todas essas questões, mas que há algumas horas eu senti, em seus beijos, em seu calor, na fricção da sua pele contra a minha, que os meus sim, os meus problemas, ele foi capaz de sucumbir. Esfrego dois dedos nos lábios e me permito viver 3 segundos daquele momento novamente. E então me viro mais uma vez para o teclado e respiro fundo. 

Henrique é um amor que eu inventei. digito

Tenho pouquíssimos anos de vida. Mas o suficiente para achar que entendo um pouco sobre ela e sobre relacionamentos e é claro, sobre o pacote que vem junto com eles: amor, sofrimento, e aquele misto enlouquecedor do sobe e desce dos sentimentos. Eu conheci o Henrique em uma festa. Sim, nada demais. Eu gosto muito de festas, contudo, ultimamente, tenho pensado se gosto delas por serem festas mesmo ou se são uma fuga para me manter longe da minha própria realidade complexa e mentirosa. Bem, ainda não tenho uma resposta. Mas foi isso, ele estava lá, com dois ou três amigos, homens e mulheres, e eu, como já deve esperar, estava um pouco mais alta em relação ao álcool. Não estava sozinha, mas naquele instante foi como se estivesse. Então me aproximei. Ah! Não ache que fiz isso porque estava bêbada ok? Muito pelo contrário, eu faria se estivesse sóbria também, acho que nunca tive problemas com "conhecer novas pessoas" ainda mais num ambiente como numa festa. 

Só um minuto, estou enjoada... 
Ah, voltei. E não, engraçadinho, não estou grávida. É que fazem horas que não como nada e meu corpo já está começando a reclamar. Mas acho mais fácil escrever quando estou livre de qualquer prazer, e diga-se de passagem, comer é um forte rival neste quesito.

Como estava dizendo, cheguei perto de Henrique e fiz o que muitas pessoas choram de medo de fazer. Toquei no ombro dele e quando ele se virou eu sorri e disse: "Oi!". Ok, Henrique não é um cara que faz o ciclo menstrual das garotas mudar só com uma piscada no olhar. Não. Ele tem uma beleza diferente, eu diria até peculiar. É alto, não muito magro, tem os olhos castanhos bem claros e bem, o que eu mais gosto, tem uma voz marcante e um cheiro... ah, o perfume. Pois é, ficamos ali, conversando durante o que me pareceram horas. Falamos desde as músicas que gostamos até às frutas que odiamos, e ah, ótimo! ele odeia figo também! Rs. 

Num piscar de olhos, a noite acabou e eu precisava ir. E como não estava sozinha não havia a menor possibilidade de "fugir" para qualquer outro lugar. Estava sem meu celular e tive que fazer algo que sim, me deixa extremamente insegura: passar meu número para ele e cultivar uma pouquinho de expectativa de que ele se lembraria de me ligar ou mandar um "olá" no dia seguinte. Nos despedimos e ele me beijou. Naquele beijo não senti, sinceramente, nada de excepcional. Meu coração não bateu mais rápido e nem soube que algo em minha vida havia mudado. Não. Não houve nada. Nem estrelas, nem fogos, nem calor. Apenas um beijo. Mas fiz com que ele achasse que tivesse me tirado do chão. Não sei bem o porquê, mas depois de soltar seus lábios e parecer bem ofegante eu soube, pelos olhos dele, que queria que ele fosse minha mentira. 

Ele não me mandou um "Olá" no dia seguinte. Na verdade ele mandou: "Babi. Não sei o que você colocou na minha bebida ou na nossa conversa, mas confesso que estou realmente cogitando repetir a dose. Adorei conhecer você. Beijos Rike". Eu li. Não sorri. Não demonstrei nenhuma reação do tipo: "OMG, ele lembrou de mim e OMFG, ele quer sair comigo de novo". Não. Mas respondi como se tivesse sido assim. E por fim, nós nos encontramos, uma, duas, cinco vezes. Foram 2 meses. Dois meses de sorrisos falsos, de beijos ofegantes, de frases como "eu adoro estar com você" ou "que bom ter achado você". 

Ele estava feliz. E eu tinha todos os motivos para estar também. Mas apenas tinha. 

Esperem, ele está acordando. 


Continua...