segunda-feira, 22 de julho de 2013

I Will Burn You



Em chamas flamejantes, eu queria ver você. Como um pedaço de papel que vai sendo consumido, devorado e engolido pelo calor do fogo. Sonho em testemunhar o seu fim; o dia em que você deixará de ser um fantasma e vai pular de vez para a minha realidade ou desaparecer de uma vez por todas. Vai! Sai logo de cima dessa corda bamba que sempre tende a me marcar ou me deixar doente por você. Pula pra cá ou fica aí mesmo, não se envolve e nem me envolve porque eu não quero e não tenho mais nada a ver.

Não pode ser tão horrível querer ver seus olhos brilhando diante da única coisa que consegue ser mais intensa que você mesmo. Deixa eu me livrar das suas palavras, desse seu amor barato, engarrafado e perfeito. Eu vou queimar você. Nem que seja a última coisa que eu faça, eu vou queimar você. Suas fotos, suas ligações, seus sorrisos, o seu cheiro, a sua voz, nossos desenhos. O quadro, os livros, as cartas, as flores. Eu vou quebrar tudo. Suas doses de felicidade, nossas lembranças, o vaso de flores, você. Vou chamar por Deus, pelos Santos, pelos Orixás e por quem puder me ouvir porque eu não me permito mais te guardar em mim. Estou arrumando suas coisas e jogando pela janela. Vou gritar aos vizinhos. E chame a polícia! Faça um escândalo. Diga que me ama. Me mate. Mata logo esse pedaço de você que já vive em mim assim, sem a menor cerimônia. 

O salão estava limpo e arrumado, mas você achou que eu suportaria mais uma festa. Não! Você estragou tudo. Viu? E eu chamei os seus pais para o seu fim. Eles choraram. Desculpe o riso, mas eu não sei fingir. Desculpe o choro, mas eu não sei ser feliz sem você. Mas, vai sem você mesmo. Leva embora, fuma, afoga, corta. Eu vou deixar você queimar e vou pedir ajuda para não cair. Porque eu quero me manter em pé e com os olhos bem abertos para o momento em que você morrer aqui dentro. E não precisa falar da dor, da culpa e da angustia. 

Eu não vou mudar de ideia, porque eu vou queimar você. 

sábado, 13 de julho de 2013

Medo Do Escuro




No dia que você resolveu ir embora, eu não sabia. Acho até, que nem você sabia. Naquele dia eu não teria deixado você sair de casa, não teria evitado te ligar ou te mandar mensagens por toda a manhã só para saber se estava tudo bem. Se eu soubesse, eu teria dito logo tantas coisas. Teria dito para não esquecer a toalha molhada em cima da cama, teria dito para lavar a louça de ontem à noite, dito para levar um casaco de frio, mesmo sabendo que estava muito calor lá fora e teria dito de uma vez por todas que amava você. Não guardaria dentro de mim essa culpa velada que me sufoca agora a todo instante, como uma tosse seca.

Naquele dia você tinha acordado atrasado, e eu até estranhei porque se tinha algo que eu admirava em você, era essa sua organização, essa pontualidade com tudo, inclusive comigo. Engraçado né? Quando o sol nasceu você não despertou, e por não dormirmos no mesmo quarto, também acabei deixando a hora passar. Tomou café correndo e nem lembro se penteou o cabelo. Ah se eu soubesse.

Teria te abraçado com mais força, sentido melhor o seu perfume que ficou lá, em cima da sua cama, jogado. Teria dito: “fica, o dia tá tão bonito.” E eu sei que você ficaria porque daí saberia que não era por mim, e nem por você, seria por nós. Por tudo que você arrastou por aquela porta quando saiu com uma torrada nas mãos. Por toda a dor que você sempre me causou, mesmo quando eu mentia dizendo que “tudo bem” de você sair com uma ou outra garota naquela noite e levar ela lá em casa. Por todo o ódio que eu senti de você todas as vezes que eu me atirava em cima do colchão chorando bem baixinho para não ter que te dar satisfação. Por essa agonia venenosa que tomou conta dos móveis, das roupas, de mim, da gente.

Porque você não me deu tchau e nem sequer até logo. Porque você prometeu que me protegeria e que estaria aqui, estaria lá, estaria em qualquer lugar para mim. E naquele dia quando você resolveu ir embora e pegar aquele ônibus, porque você falou? Por que não ficou quieto como eu sei que costumava ficar? Por que o seu senso heroico resolveu acordar naquele dia e reagir àquele assalto? Por que tomou aquele tiro? Ein?

Olha, eu estou aqui, na nossa casa... Jogada no chão te fazendo e me fazendo todas essas perguntas por que a bala que te atingiu também me perfurou. E ela tá girando para dentro da minha pele e queimando tudo. Os meus sonhos, a minha confiança, a minha autoestima. Você prometeu que estaria aqui. E eu acreditei. E no outro dia você me perguntou: “Está estranha, faz uns dias, não tem nada pra me falar? Você é minha melhor amiga, sabe disso, confia em mim”. Eu segurei sua mão, beijei e chorei no seu ombro e respondei: “Tem nada não, tô com saudade da minha mãe”. Eu deveria ter dito: “Tem nada não, é que eu tô apaixonada por você.”.

Olha, quando você resolveu me deixar você desligou a luz de casa. E você sempre soube que é do escuro que eu tenho medo. E sei lá, onde quer que você foi, eu nunca vou te perdoar.

domingo, 7 de julho de 2013

Vou Precisar



Eu estava caminhando por aquele corredor frio do qual eu nunca gostei e acho que nunca vou gostar. Nele, as pessoas nem se quer se entreolhavam, estavam tão mergulhadas e imersas em seus próprios problemas que, era difícil notar que existia vida naquele lugar. Que ironia. Se bem que, o que poderia se esperar de um corredor de hospital, se não tristeza? A ironia vinha da felicidade de alguns em receber a vida, na forma de um bebê ou de uma cura. Você já deve imaginar que este não era o meu caso. E provavelmente não era o caso também dos três ou cinco que eu vi arrastando os pés por aquele chão diária e incansavelmente branco e limpo. 

Esfreguei a ponta dos dedos entre os seios e respirei lentamente para ver se doía um pouco menos. Mas não adiantou. Dei mais alguns passos e abri a porta do quarto onde dormia há 2 dias. Você não estava lá. Provavelmente conversava com algum médico naquela imensidão mórbida. Suspirei e fechei a porta. Sentei por alguns instantes na cama e toquei meus cabelos, secos, sem brilho e sem vida. Molhei os lábios lentamente e fechei os olhos por um instante. Me perguntei se era justo. Meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho da porta se abrindo novamente. Olhei para você, ansiosa. Mas não houve retribuição. 

— E então? O que disse o exame?

— Ah... nada ainda. Os médicos dizem que você está perfeita. Sua saúde é melhor do que a de 90% das pessoas aqui dentro. 

— E como explicar essa dor? O pânico, os choros, a tremedeira? 

Você não quis responder. Na verdade eu acho que não soube, porque balançou a cabeça negativamente e segurou minha mão como se quisesse dizer: "Eu não sei, mas eu estou aqui". E eu juro que era disso que eu tinha medo. Medo de fazer você ficar. De te levar para um fundo onde nem eu, nem você, veríamos a saída. Eu não sabia dizer se eu suportaria, não a dor, mas você. Não sei dizer se suportaria ver você sofrer. Mesmo sabendo que fazia de tudo para não demonstrar. Eu sei que achava mesmo, que eu não te via pelos cantos da casa chorando sozinho. Eu sei que, as vezes, sorria para evitar uma lágrima minha. Sei que por várias noites, você se assustava com meus gritos dos pesadelos e corria pela casa derrubando todos os remédios, a procura do meu calmante e que quando não encontrava sentia até um pouco de alívio por ter que sair no meio da noite para comprar porque os meus gritos eram o seu abismo. Te fazer sentir impotente diante de mim, me fazia sentir a pior pessoa do mundo. Ah meu Deus, e como eu me culpava.

Eu te olhei compreensiva e triste. Não consegui suportar a onda de dor aguda que vinha me atingir o peito como as águas do mar enfurecidas atingem as pedras na costa. Fechei os olhos e senti os lábios tremerem com força, baixei a cabeça e eu poderia me atirar dali mesmo, de cima daquela cama alta, torcendo para cair de cabeça e morrer logo. Mas você nunca deixaria isso acontecer, então antes que a primeira lágrima queimasse meu rosto você já estava lá, me amparando com seus braços que nem era tão fortes assim, mas que eram a minha força. Eram tudo que eu tinha. Já que meu problema de fato era não ter nada. Mesmo sabendo que você sempre significou tudo. Entre soluços eu quis ser decisiva... 

— Eu não quero mais, eu não aguento mais... dói muito, tá doendo muito! 

— Eu sei, eu sei... amor, eu sei... 

A agonia na sua voz me cortava como uma lâmina afiada. Eu sentia no seu desespero o crescer do meu. Eu sentia na sua insegurança, a minha responsabilidade. Mas passou.

O dia amanheceu e você tinha dormido lá mesmo. Acordei amarga e meio mal humorada, apesar das suas inúmeras tentativas de me fazer sorrir. Sim, por que você gostava de fazer assim, de me comprar doces, de por músicas que eu gosto no carro, de me contar piadas... mas não adiantou. Foi quando chegamos em casa. A nossa casa. Você lembra que era nosso sonho? Lembra? E a gente achava que nunca ia dar certo. Pois é. Você abriu a porta do carro para mim e me pediu para olhar o céu, que naquele dia estava azul, azul... como a cor dos seus... 

Eu não olhei.

— Eu não posso mais fazer isso. Não posso mais... tá me machucando mais do que essa maldita dor ridícula que não me deixa dormir. Eu não quero mais nada disso. Eu não quero o seu amor, eu não quero o seu  carinho, eu não quero a nossa casa, eu não quero esse céu azul... eu não quero mais você.

— O QUÊ? — Você me olhou horrorizado, e eu quase me desmanchei no chão de tanto chorar. 

— Amor... eu não posso mais.

— Você está maluca, ALTERADA, para de dizer essas coisas, me machuca assim. Ei, não chora! Não chora, vem cá. A gente vai achar de onde tá vindo esse problema, viu? Vai ficar tudo bem, você não acredita em mim? Confia em mim.

— Não. Eu não acredito... PARA de mentir pra você. Eu não posso te tomar mais esse tempo, essa paciência que você poderia estar gastando com alguém que realmente vale a pena, ou que tenha solução.
—Nã...

— NÃO! Não fala. Não dá mais...

— Porque?

— Porque eu preciso de você.

— Eu TAMBÉM preciso de você!

— O problema é que eu vou precisar muito mais!!

— (...)

— (...) 



(O resto dessa história ninguém nunca soube, ou ouviu falar. Alguns dias depois, o silêncio tomou conta da casa do jovem casal, que não eram bem um casal. Nunca mais ninguém o ouviu sair de carro na madrugada, porque provavelmente ele nunca mais a ouviu gritar à noite.)