quarta-feira, 25 de junho de 2014

18 dias de Junho



Um dia, sete horas, vinte e três minutos e quarenta e dois segundos. É segunda feira. Aquelas típicas, com gosto amargo e céu cinzento. Cenário comum em uma cidade maluca como São Paulo. Eu preciso trabalhar, mas ainda falta muito tempo para sair de casa. Então eu sento na cama e começo a pensar aceleradamente em coisas que possam tomar o meu tempo até lá, já que sei que se deitar agora não me trará o sono de novo e só vai tornar uma máquina de imagens suas em movimento. Então acho que é uma boa ideia começar uma faxina em meu quarto. Pés no chão gelado, luzes acesas, janelas abertas e a playlist de músicas de balada no último volume.

Cinco dias, doze horas, trinta e seis minutos e dois segundos. Todos estão animados dentro do ônibus. Seus semblantes denunciam que hoje provavelmente é o melhor dia da semana para todo mundo: hoje é sexta feira. Meu estômago está doendo. Sinto como se meu corpo fosse uma folha de papel dentro daquela máquina de chacoalhar. Tento me manter em pé sem esbarrar em ninguém mas parece uma tarefa impossível. Estou com os meus fiéis fones de ouvido criando uma barreira entre eu e o resto do mundo. Mas não é uma boa solução quando o objetivo é me isolar de você. Que dor no estômago, inferno.

Onze dias, quinze horas, cinquenta e oito minutos e vinte e quatro segundos. O trabalho parece o melhor lugar para estar. Sinto que ao menos durante algumas horas do dia posso tirar os fones sem medo de me encontrar com uma imagem sua na próxima esquina. Posso sorrir sem precisar lembrar que não tenho motivos para isso. Tenho permissão para conversar com as outras pessoas sem o compromisso de perceber que não nos falaremos durante à noite. E finalmente, lembro que estou há várias horas sem comer e acabo cedendo à qualquer bobagem que encontro pela frente. No fundo eu sei que é só por isso mesmo que eu ainda não desmaiei fraco pelas ruas.

Quatorze dias, vinte horas, seis minutos, e trinta e sete segundos. Modifiquei a playlist do celular para uma que dei o nome de “The funeral”. Não tenho medo e nem vergonha de chorar andando sozinho pela calçada. Eu percebo que as pessoas se sentem diretamente atingidas. E mesmo não demonstrando, acho engraçado. Ninguém gosta de ver outra pessoa chorar porque não sabe como lidar com a dor e o sofrimento alheios. Então, ao mesmo tempo em que elas me olham, elas desviam o olhar tentando de alguma forma, de alguma maneira se proteger da minha angustia. Porque este é um tipo de sentimento com aspecto contagioso.

Dezoito dias, uma hora, cinquenta minutos e cinco segundos. Não consigo dormir. Estou praticamente fritando na cama como se fosse um pedaço de guioza. Meu corpo está quente e dolorido. No peito uma sensação estranha de aperto e uma falta de ar que com certeza é do resfriado que acabou me pegando essa semana. Acho que estou com febre. Abro a bolsa, procurando um remédio relaxante muscular ou qualquer coisa do tipo. Sento na cama esperando que em algumas horas algo faça efeito. Neste tempo, você aparece, me sufoca, me afoga e me mata de tanta saudade, de tanta dor. Choro como eu nunca chorei em toda a minha vida e percebo que já é hora de acabar.


Um dia, oito horas, zero minutos e zero segundos. Hoje é segunda-feira, faz 30º lá fora eu estou escolhendo viver sem você. 

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Ela



Tem pouco tempo que eu comecei a fazer as coisas sozinho. Coisas bem bobas que na verdade eu nem lembrava mais como funcionavam depois que você apareceu por aqui. Uma delas era ir ao cinema. Essa semana por exemplo, eu tava ali na Avenida Paulista e deu vontade. Entrei, comprei um ingresso e esperei uns 20 minutos para a sessão começar. Antes de entrar na sala, fui ao banheiro e também tomei um café. Tava frio pra cacete.

Não tinha muita gente por lá, na verdade, além de mim, esperando para a sala abrir tinham mais duas idosas, uma mulher de óculos concentrada na leitura de um livro que eu não lembro o nome, e um grupo de adolescentes que provavelmente haviam acabado de sair da escola ou da faculdade e iam entrar só para dar uns beijos no escuro mesmo. Achei engraçado.

A sala abriu. O atendente verificou minha carteirinha de estudante e carimbou o ingresso. Eu entrei, sentei no meu lugar e esfreguei as mãos, tava realmente muito frio naquele dia. Naquele lugar. Não demorou muito para o pessoal vir e se acomodar também. Um, dois, três, quatro casais se espalharam por ali bem longe das luzes. As velhinhas sentaram lá na frente e cochichavam sem parar. Tive a impressão de que elas falavam sobre uma ou outra barbaridade que viram no noticiário na noite anterior. Todos se acomodaram e as luzes se apagaram.

A bem da verdade é que eu nem li o nome do filme. Eu não sabia o que ia ver, nem quem estava no elenco, e muito menos havia visto algum trailer na internet. Na real, eu só pedi um ingresso meia para a próxima sessão. E lá estava eu, pela primeira vez em algum bom tempo, sozinho em um cinema no coração de São Paulo. Cruzei os braços e olhei para a tela.

Quando o filme acabou eu não consegui sair do lugar. Enquanto as letras subiam e as pessoas começavam aos poucos ir embora, eu me mantive ali, estático, paralisado. Sentindo como se mil e uma coisas rodassem a minha cabeça.  Foi ali, naquele cinema, sozinho, paralisado, que eu me dei conta que você tinha morrido dentro de mim. Eu olhei para o lado e não encontrei nada seu, seu perfume, sua presença, seu sorriso, sua mão na minha nuca, nada. O que eu encontrei foi um reflexo do meu coração, uma miragem da minha alma me mostrando que pela primeira vez em um ano e seis meses eu estava sozinho de verdade.

O filme se chamava “Ela” e falava sobre um cara que se apaixona por uma inteligência artificial. Por algo que não existe. Quer dizer, a gente até fica na dúvida se existe ou não. O filme que eu vi, tava falando de mim, falando da gente. Pela primeira vez em um ano e seis meses eu me perguntei se a gente foi de verdade; se você realmente me amou; se estava ali e se em algum momento da minha vida, eu ia conseguir seguir sem você.

Pela primeira vez em um ano e seis meses, eu tô aceitando que você não me fez bem e que quando alguma coisa morre dentro da gente, um pouquinho de nós morre junto. Naquele dia, eu só fui embora quando a moça da limpeza me balançou e disse: “Moço. Tem que sair da sala viu? Vai começar outro filme!”. E eu tropecei até a saída. Naquele dia, eu me dei conta que eu precisava deixar você ir, e que só assim, você me deixaria também. 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Doente de você



A falta que eu sinto de você é tão contundente quanto uma faca que corta a pele, que perfura a carne e faz sangrar o corpo. É como estar tão perto e tão longe do sol. Como se os raios jamais fossem suficientemente quentes para entregar ao corpo a sensação de bem estar e de aconchego que eu preciso. 

No momento em que você está ao meu lado é também o momento em que eu me sinto mais sozinha, mais perdida e confusa. A sua presença me faz ter surtos e delírios passageiros. Enjoos, desejos, pequenos surtos, grandes dores e alguns espasmos que eu, com alguma prática, até que aprendi a disfarçar e a controlar muito bem. Mas sei lá, se um dia quiser ter certeza, só repara. Repara na desconexão do meu sorriso com meus olhos; na minha voz gritando no silêncio que eu não estou bem e que a qualquer minuto, qualquer dia, você vai acabar me matando com esse excesso de você. 

Do seu lado eu me sinto menor, um pequeno grão de areia, vulnerável, insosso, incapaz, incolor, menosprezado e finalmente, rejeitado. Quando sinto o seu abraço, é como me atirar em um abismo do limbo, onde o fim é exatamente a eternidade da queda na escuridão. Com você, são sempre tiros no escuro que de um modo ou de outro voltam à partir meu coração e me deixar à mercê dessa falta, dessa necessidade que eu desenvolvi de você, sabe? 

Eu teria ido embora se você pedisse sinceramente sabe? Se você de uma vez por todas pudesse ter a coragem de dizer que eu não te faço bem e que a gente vai acabar matando um ao outro com todo esse sentimento inacabado, incompleto, depositado de modo errado em alguma esquina do meu coração. Eu juro que por você, eu teria recolhido da a minha esperança, todos os cacos da minha felicidade e todo esse amor doentio, colocado tudo em uma pequena sacola de panos e ido embora. Não sei bem para aonde, mas à uma distância segura de nós. Do que nos tornamos, do que somos, do que estamos. 

O seu problema é gostar muito mais de nós do que de mim. E o meu problema é gostar muito mais de você do que de mim. No final das contas o saldo está sempre negativo. E a gente finge, a gente tenta fingir que tudo bem porque no mês seguinte a promessa é destinar o valor da dívida ao lugar certo, mas nós não somos assim e os juros vão nos consumindo a cada minuto um pouquinho mais.

Eu tô sentindo a sua falta enquanto você senta ao meu lado no cinema. Sinto a sua falta enquanto você me puxa para dançar, quando jantamos ou tomamos café juntos. Quando você dobra a esquina e sorri para mim, quando sua boca toda minha pele, quando suas mãos percorrem as minhas, quando os nossos olhos se tornam apenas um e um riso bobo enche o ar de uma falsa alegria. 

Eu sinto a sua falta porque eu tô doente de você. 

Olha, se você pedir... eu vou embora. Mas eu tenho uma mania de querer curar uma dor com outra dor então, me conhecendo, eu acho que vou ficar mais um pouco. Vou sentar, tomar um café e deixar seus outros amores brincarem comigo e com meu peito que já está até inchado de tanto prender a respiração. 

Eu sinto sua falta... mas não quero que você fique. A gente sabe. A gente sempre soube.

A gente precisa aceitar.