domingo, 25 de setembro de 2011

Agonia boa


Ela sentia como se seu corpo estivesse sendo esvaziado. Já fazia algum tempo que estava assim e, embora não gostasse daquilo, insistiu em ficar. Estavam sentados no sofá da casa dele, tinham de terminar um trabalho. Ele redigia, enquanto ela devorava textos e mais textos e de hora em hora lia o que já havia escrito ou revesava e tomava o posto de redatora. Não havia absolutamente nada de estranho naquela cena. Pelo menos não aos nossos olhos, contudo, dentro dela, uma verdadeira "agonia boa" transitava desesperada. Aquela aproximação era algo incomum em sua mente, suas mãos suavam e ao mesmo tempo que lutava para se manter concentrada na responsabilidade que tinham pendente deixava que todo seu corpo se deixasse levar pelo cheiro do perfume que ele pouco usava. A ponta dos seus dedos as vezes passavam pelos fios daquele cabelo, como se tirasse algum fiapo, mas na verdade era só o desejo de tocá-los mesmo. Foi num desses momentos em que ela, distraída, olhava o rosto do rapaz fixamente e ele no impulso de lhe dizer algo encontrou aqueles olhos.

A única coisa que ela desejava é que ele entendesse, que visse, que percebesse, que ela estava ali, sempre esteve. Ficou sentada por horas e o choro preso na garganta lhe fazia sentir dor. Não queria chorar. Não podia chorar, nem mesmo tinha razões para isto. As especulações que havia feito eram baseadas naquele seu passado medonho que já deveria ter sido esquecido. Seu rosto ficou corado e quase que involuntariamente desviou os olhos no mesmo instante e deixou-os fixos no chão. Um medo avassalador tomou conta de todos os lugares por onde seu sangue percorria. Percebeu que ele apenas movimentou o computador que estava em seu colo para a mesa do centro. Fechou os olhos por segundos, temia que o rapaz tivesse percebido algo e levasse consigo uma impressão negativa, mas ele continuou sentado. Uma das mãos dele tocou a pele gélida dela. Neste instante o coração da garota acelerou de tal modo que quase perdeu completamente o ar. Seus olhos lentamente foram em direção aos dele e pela primeira vez pôde lhe dizer em silêncio o quanto o queria. Nada foi dito, nem mesmo os carros na rua que costumavam ser irritantemente barulhentos, se atreveram a interromper aquele momento. O rapaz sorriu e sussurrou "Ei... está gelada. Não tenha medo..." e no segundo seguinte seus lábios aqueciam os dela. 

Os céus mais uma vez lhe fizeram o favor de acompanhar seus pensamentos e em instantes gotas fortes e entristecidas vinham à terra. Fortes. Pesadas. Receosas. Apaixonadas. Lembrou de coisas que jurou esquecer, e de momentos que por melhores que tivessem sido gostaria de queimar no tempo. Não lhe restavam muitas alternativas, teria de conviver com aquilo até que pudesse colocar um ponto final em mais um dos teus bordados feios e inacabados. O sol que havia tocado sua pele naquele dia era o único capaz de aquecer seu maldito coração risonho. Beijou-o com desejo, com ardor, e com saudade, pois sabia que pelo menos para ele quando o sol voltasse a nascer na manhã seguinte, aquilo não teria significado nada. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Dedos e devaneios



Lá fora o céu está estranho. Nos últimos dias ele esteve. Estranho para mim apenas. Tenho a impressão de que tem acompanhado os meus humores. Neste momento ele está cinza claro e uma brisa fria toca minha pele através da janela fechada.  Quis vir antes, os dedos e devaneios pediram muito, mas como sempre por algum motivo não obedeci. Eis que me rendi ao tempo vago e cá estou em busca de organizar as coisas que flutuam diante dos meus olhos aflitos. Você está longe. E eu posso te sentir saindo de mim, finalmente. Dói... mas só quando lembro que um dia doeu ainda mais. Nas últimas muitas semanas eu não pensei em ti, embora, confesso que, teria sido bem mais fácil. Acho que estou descobrindo as dores e delicias de sentir coisas tão diferentes em um espaço tão curto de tempo. Hoje vim falar dele. Falei com algumas pessoas a algum tempo e mesmo assim sinto uma necessidade quase que inexplicável de compor meus silêncios. 


E agora? Muitas vezes me perguntei isso afim de encontrar uma saída para coisas ruins . Outro dia disse a uma amiga: "procuro razão naquilo que sinto e principalmente naquilo que penso". É engraçado, porque neste momento as dúvidas não são para fugir e sim para estar mais perto. De você, do seu sorriso, do seu cheiro... da sua voz. Como faço para você ver através de mim e perceber que quando está perto o mundo fala baixinho? Depois de tanto tempo sem saber como era olhar assim para uma pessoa eu me sinto uma recém-nascida tentando falar e andar. A todo momento me pego observando seus gestos e brincadeiras e ao mesmo tempo também me pego tentando encontrar um motivo para que o meu coração fique tão pequenino diante da sua presença. Não encontro. E não me agrada procurar. Não quero saber, não quero encontrar, quero deixar. Deixar-me. Deixar-me ir atrás daquilo que acredito, daquilo que me faz sorrir. As minhas vontades e medos se confundem quando seus olhos pousam em mim, e desajeitada eu tento prender sua atenção, lhe mostrar algo que pelo visto só eu percebo. Ainda não consigo definir o quão disto tudo é bom e o quão é ruim. Ou se existe mesmo algo bom ou ruim, ou se não existe nada. Fico sem saber. E prefiro. 


Vou preferindo e descobrindo até quando o complexo não me parecer mais atraente. Até lá, fico de longe sorrindo quando você sorri e deixando que os céus falem por mim.