sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Ansiedade, pela última vez




I got a fear, oh in my blood
She was carried up into the clouds, high above
If you’re there I bleed the same
If you’re scared I’m on my way

If you runaway, come back home
Just come home

Não, você nunca me viu falando sobre ansiedade publicamente, nem mesmo escrevendo sobre ela (ou só não estava atento o suficiente). Apesar disso, esta será definitivamente a última vez. 

Você pode não ter percebido; passou pela sua mente mas, ao mesmo tempo, foi tão rápido que nem merecia atenção. Mas eu tenho certeza que se perguntou por qual motivo não aceitei o convite para tomar uma cerveja. E estranhou quando, não mais do que do nada, o meu humor mudou da água para o vinho e o clima simplesmente se transformou em algo indigesto. Eu também percebi o seu incômodo quando perguntei várias vezes coisas que, para você, talvez fossem óbvias e em alguns momentos até chatas.

Hoje, na verdade, eu deveria estar fazendo outra coisa. Algo que precisa da minha atenção, algo que preciso finalizar. Mas, neste momento, diferente de todos os outros, é a primeira vez que me sinto a vontade para dizer certas coisas. Pela primeira vez em um tempo indeterminado eu consegui sentar e fazer a coisa que mais me alivia na vida: escrever sobre as minhas angústias. E, inclusive, foi através deste bloqueio tão intenso que percebi que algo estava errado. Muito errado. 

A ansiedade é um tipo de transtorno mental. Já ouvi muitas pessoas rindo ou dizendo "nossa, eu também tenho ansiedade" quando, por acaso, comentei que sofria com ela. É mais do que comum alguém dizer "ah, mas vamos sair que melhora", "ah, mas trancada dentro de casa e com essa cara feia, qualquer um fica ansioso né?". Errado. Você já sentiu como se fosse um copo cheio d'água e uma inofensiva gota pudesse ser capaz de provocar um tsunami? Ou já sentiu como se o tempo fosse algo que corre tão rápido, mas tão intensamente que você não consegue respirar? Nossa percepção do tic-taquear do relógio é tão aguçada que é quase como se pudêssemos tocá-lo. Sintomas? Choro, taquicardia, nervosismo, insegurança, baixa autoestima, angústia e tristeza, muita tristeza. 

Quero te dizer agora que não, nem todo mundo tem este transtorno. O que eu estou descrevendo aqui não é a ansiedade por algo por acontecer, a espera por uma notícia ou mesmo para ver alguém. Estou falando de uma angústia tão profunda que ao chegar no limite você se esvazia ao ponto de não se reconhecer mais. De entrar em um redemoinho escuro e ir se perdendo, se apagando, até sucumbir dentro de um limbo que existe em casa um de nós. 

Ela é capaz de arrancar todo o meu chão, todas as minhas certezas, a minha confiança, as minhas verdades; consegue dissolver a minha estabilidade e reduzi-lá ao pó que o vento leva. E então, incansável, ela me guarda em um lugar sujo, onde estou cega, com sede, com fome, sozinha e com frio. E é aí que ele chega: o medo. Esta é a pior fase da ansiedade. Ao alcança-la você acredita que o caminho de volta foi apagado. Não há retorno, atalho, saída. 

Passei por duas situações de stress limite: uma tentativa de assalto com arma de fogo e um assalto com arma branca. Ambas com a diferença de uma semana cada. O que sobrou? Transtorno de stress pós-traumático e medo. O medo é um sentimento muito parecido com amor e ódio. E assim como eles, ele é um estado de espírito que te paralisa. De repente tudo caminha ao redor daquilo e você vive em função disto. 

Cada um de nós tem medos específicos, subdivididos de acordo com o poder que eles podem ter sob nós. No meu caso, após semanas e semanas de reflexão e terapia descobri que o meu maior medo é o do abandono. Tenho medo de pensar em ficar sozinha, no sentido amplo da coisa e no mínimo também. Mas não é o estar sozinha de sempre ser desde que nasceu. É o de ser deixada. Aquele medo que nós temos de nos perder da nossa mãe no centro da cidade, sabe? O medo de não encontrar mais e só sobrar a lembrança de que um dia você esteve ali, com aquela pessoa. 

Todas as minhas crises de ansiedade me incapacitam. E o pior de tudo: elas travam a minha comunicação. Eu simplesmente não consigo dizer o que me incomoda, o que me angustia, o que está acontecendo e isso afasta as pessoas. Afasta aqueles que tentam me ajudar. As pessoas precisam conhecer os gatilhos para encontrar o botão desligar, caso contrário, ficam de mãos tão amarras quanto as nossas. A diferença é que eles podem ir embora e te deixar com aquela luz acesa enquanto tudo que você quer é dormir. Descansar. 

Uma pessoa ansiosa fica agitada e inquieta, é fácil perceber. Uma pessoa com transtorno de ansiedade muitas vezes está quieta, amuada em seu canto, vivendo o inferno por dentro e, eu garanto, você dificilmente vai saber. Por isso, quando alguém te contar que sofre com TAG, não menospreze ou diminua aquela situação. Ouça o que ela tem a dizer, e não sinta-se obrigado a ficar. Nós sabemos, melhor do que ninguém, o quanto é difícil. 






quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Minha morada



Cause you make the darkness less dark
You make the edges less sharp
You make the winter feel warmer
You make my weakness less weak
You make the bottom less deep
You make the waiting feel shorter
You make my crazy feel normal, every time
You are the who, love is the what, this is the why


O cheiro doce do dia amanhecendo é o primeiro som capaz de nos fazer despertar. As mãos magras e firmes dela estão esticadas sob o travesseiro. Seus olhos estão fechados mas sei que já está acordada. A respiração mudou, é como se ela tentasse enxergar enquanto fareja sob a cama. Seu corpo se move em minha direção e eu, por mais alguns instantes, me mantenho inerte. Aos poucos, a resistência me desabita e de repente estou aninhada em seus braços. Estou meio de lado e minha camisola está enrolada até o meio das coxas. A alça do braço esquerdo está caída e mesmo sem olhar, sei que sabe de todos esses detalhes. 

Os lábios dela são macios e têm um gosto de fruta da estação, fresco e doce. Sorrio ao sentir a ponta de seus dedos desenhando as linhas da minha cintura. Um "eu te amo" tímido e íntimo invade meus ouvidos e então o coração explode e acalma ao mesmo tempo. Ela sempre teve esse poder, desde que a conheci. Esse poder de fazer as coisas mais grandiosas do mundo em pequenos gestos. Mesmo quando eu não sabia, era amor. Na conversa tímida pelo celular, no riso solto que ela sempre teve quando eu chegava perto. Também era amor quando ela me via entrar em sua sala de trabalho apenas para dizer "oi" e seus olhos brilhavam como quem convida "fica mais um pouco?". Era amor desde a primeira música ao vivo em um planeta distante chamado Júpiter. Em cada palavra carinhosa, nos pedidos de "desculpa" sem necessidade, no respeito acima de todas as coisas, no mundo completamente inédito e florido que ela me fez encontrar dentro dela. 

Ali, naqueles braços, o peito aperta e a respiração desacelera. A mente desliga e mais nada importa. Só existe o nosso alento, seu toque carinhoso e a vida sorrindo para nós atrás das cortinas. Aprendi a viver assim com ela. Aprendi a, mesmo ao seu lado, me bastar dentro de mim mesma. Acordar e perceber a vida em pequenas gavetas, mesmo que façam parte de um mesmo guarda roupa imenso. Cuidar de cada uma delas com cuidado, entusiasmo e dedicação. Aprendi também que posso ser amada e que tudo em mim é apaixonante, desde o meu riso, o jeito despojado de falar, meu cabelo crespo, as curvas gordas e até meu ronco noturno por conta dos problemas respiratórios. E que todos podem se apaixonar por mim, principalmente eu mesma, todos os dias da minha vida. 

A minha morada, me ensinou a ponderar antes do impulso da ação, da palavra. A pensar, medir, pesar e às vezes desistir. Afinal, desistimos de alguns começos para garantir finais muito mais felizes, mesmo quando eles são efêmeros. Entendi ao lado dela que todos os dias vão ser felizes, mesmo quando são tristes e essa tristeza é um estado de espírito mais do que permitido, é necessário. Isso quer dizer que quando compreendermos que estar triste ou decepcionado nos permite a benção da escolha, tudo pode ficar muito melhor. Escolha lidar com isso agora ou depois; tenha consciência de que os outros caminhos continuam andando mesmo quando aquele emperra; não se desespere, não chore demais, não se entregue demais, não se deixe acostumar com o sabor do sofrimento, nenhuma flor sobrevive com excesso de cuidado. Tem calma. 

Enquanto o dia amanhece preguiçoso, o olhar atento dela me mapeia. Analisa os vales mais profundos, escaneia cada pequeno território e cria relatórios automáticos a cada visita. Ninguém nunca soube tanto de mim e nunca me ensinou tanto sobre mim mesma. Observar. Observar também foi algo que aprendi com ela. Os movimentos, os detalhes, as palavras, as expressões, a forma de se sentar, a pele arrepiando durante uma música nunca escutada, as histórias contadas, as experiências guardadas, os medos, segredos, o corpo. Qual é a temperatura da pessoa que você ama? Que cheiro tem o cabelo dela? Como ela gosta de sua bebida? O que tem por trás daquele "deixa pra lá..."? Quantas horas ela passa te vendo dormir? Por qual motivo ela é tímida às vezes? Ela prefere músicas agitadas ou mais lentas? Ela reconhece que você também a ensinou muito? O amor é como o primeiro dia de aula em uma escola nova todos os dias. Tudo depende do quanto você está disposto a fazer este ser um dia incrível. Algumas coisas podem dar errado, é normal e que bom que dão. Mas volte para casa querendo estar lá no dia seguinte, e no outro e mais um e depois também. 

Li em algum lugar que algumas pessoas moram perto, outras moram longe e tem gente que mora na gente. A minha morada mora em mim e eu moro nela. Se você encontrar a sua, construa uma casinha no campo, com duas cadeiras e uma rede na varanda. Tenham um cachorro e um cantinho para alimentar os passarinhos que ali decidam pousar; toda vida com felicidade gratuita será bem vinda. Limpem a casa juntos, ouvindo a própria música, cantada por vocês mesmos. Cozinhem o que tiverem vontade, sentem-se no chão da sala e riam de si mesmos. Abram um vinho especial às vezes, brindem uma ou duas taças. Briguem, durmam um no sofá e o outro no quarto. Acordem pela manhã recebendo uma flor colhida do jardim como pedido de desculpas e chorem. Se abracem com força, façam um chá, sentem-se para ver o por do sol na varanda e digam que se amam. A gente só mora de verdade em quem é lar e lar, é sagrado, é o nosso melhor lugar no mundo todo. 

A minha morada é namorada e a gente vive em uma casinha muito linda dentro de nós mesmas.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Aquilo que nos une



Por Larissa Mattos, há 5 anos; para mim.

Não sei dizer de onde surgiu vício de rotular emoções em verbetes e jogá-los sobre uma folha de papel. Arriscando um momento de tristeza, de incompreensão ou de loucura, muito provavelmente eu não estaria errada. Mas não é para discutir o 'como' que estou aqui, às onze da noite, te escrevendo. É para discutir os porquê's. E, sendo assim, ouso afirmar: a escrita não surgiu em nossas vidas por acaso.  

Escrever, mais que uma forma de terapia ou um hobbie, é um dom. Conheci pessoas que sofriam horas diante da caneta e do papel, sem conseguir exprimir meio parágrafo sequer. Pessoas cujo talento para expressão talvez estivesse na oratória, no desenho, no cinema, ou em qualquer outra forma de arte, mas certamente não na escrita. E não porque não escrevessem adequadamente - de maneira nenhuma! Qualquer um pode muito bem deitar numa folha as palavras que não ousa dizer em voz alta. Refiro-me, contudo, à forma como o fazem que, quando temos acesso à textos como os teus, soam artificiais, comedidas, antinaturais.

Conheci poucas pessoas com uma capacidade de verborragia como a sua - e, o mais importante, acompanhada de clareza e pluralidade singulares, impressionantes. E minha vida não poderia ter se entrelaçado à sua de outra maneira senão pelo que temos em comum: um mundo de palavras. Li sobre sua felicidade em termos tão leves quanto pluma; li sobre sua dor, tão intensa e destrutiva, como se o sangue escorresse do papel; li sobre teus amores com o coração batendo em urgência; li sobre você e acabei lendo (e aprendendo) muito sobre mim também. Porque você tem essa capacidade: a de transmitir tudo que se passa dentro de você de uma forma direta, incisiva e verdadeira - e, por isso mesmo, tão maravilhosa. E sei que peco tentando descrever o efeito que suas palavras têm sobre mim, mas sei que há de me perdoar. O ser humano tem dessas ambições infundadas - tentar descrever o belo é uma delas. 

Por fim, diante disso, o que me resta é repetir: por favor, não pare nunca. Continue tendo força para para contar tua história em forma de prosa, para levar tuas palavras mais e mais longe. Agora você sabe, elas não são só tua sina e tua salvação. Deixaram até de ser você mesma, em última instância, para se tornarem também pedacinhos de outras pessoas. Você derramou sobre nós o que de mais íntimo e intimidador havia em ti e nos encantou. Identificação é o termo. E, sem dúvida, esse é o melhor presente que você recebeu nessa vida. Não o desperdice nunca.

Sou extremamente grata por tê-la conhecido, e, sobretudo, por ter feito parte do seu processo de descoberta da escrita. Com muito carinho, de quem muito te admira,

Larissa.

"A escrita o envolvia no seu âmago, num abraço quente e reconfortante, evocando a desejada união. Continuaria a exprimir através das palavras aquilo que lhe vai na alma, a sua inquietação. E estas iriam afirmar o seu devaneio, a sua dúvida, a sua realização. O seu desejo permanecerá descrito nas linhas que unem o presente ao futuro, refletido na sua intemporal ambição."

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Isabelle, isa, belle



E eu que achei que a vida não seria capaz de me surpreender. Que falta de fé a minha. Logo eu, que movo tudo ao meu redor só por acreditar nas coisas, nas pessoas, nas causas, na vida, no dia seguinte. Aprendi com ela a explicar tudo usando a música como base. E se a dúvida é se aprendi algo sobre o assunto, a resposta é não. Continuo leiga e gosto de ser, pois quando ela fala da música, o mundo todo faz silêncio para ouvir. 

Na música que a vida é, ela me tirou para dançar, e que orgulho, que honra. Logo eu, que nesse ritmo mal sei o que significa “dois pra lá e dois pra cá”. Ainda assim medrosa, ainda assim tímida, lá fui eu. E não é que não faz medo dançar com ela? Pisada no pé está inclusa, mas que graça teria se fossemos profissionais, né não? 

Isabelle, isa, belle. Que bela hein? Que coração lindo, que mulher maravilhosa, que pessoa única você é. De tal gentileza, simplicidade, bondade e determinação. Ih, determinação. Quando ela coloca uma coisa na cabeça, esqueça. Não tem Freud que explique e nem Foucault que a faça mudar de ideia. Vai até o fim, nem que para isso leve uns 8 meses.

A Belle tem o dom de trazer beleza para a vida das pessoas sabia? Não gosta de chamar atenção, mas é espaçosa. E como é. Quando a gente percebe, boom! Ela está lá, em toda a parte, o coração fica apertadinho, quentinho, cheio dessa pessoa inacreditável que ela é. E que confortável é ter ela aqui. Mesmo. Se você nunca tentou, devia tentar. 

Hoje quando acordei, abri o celular e o Facebook disse: “Hoje é aniversário dela. Achamos que você não quer perder a chance de parabenizá-la”, ah Facebook bobinho, eu já sabia. Não precisava me contar. Você fica aí fingindo que conhece a gente, mas não conhece. A verdade é que o dia passou e a cabeça não conseguia colocar em palavras o tantão de amor que eu tenho por ela. 

Outro dia falei pra ela que passei a vida esperando ela me chamar ali no portão, e que agora que chamou, a gente vai dançar até o final daquela música, lembra? Pois é, 28, 29, 30... quanto tempo mesmo a gente leva pra gostar de alguém? Não sei, mas sei que vai passar uma vida inteira e eu vou continuar gostando dela. 

Te amo Belle, feliz aniversário. Obrigada por gritar desesperadamente no meu portão. A campainha tava quebrada, mas prometo que vou concertar. 

Um beijo. Sua Nat.

domingo, 21 de agosto de 2016

Modéstia à Parte



É tão bom te acompanhar
E ver você sendo você
Te observar me adivinhar
E me ler sem legenda nenhuma
É tão fácil te gostar
Vira parte do viver ♪ 
Ela se deixou em mim. Assim como quem não tem medo de se perder, como quem não quer pensar em descobrir o caminho de volta. Sua boca provou da minha assim como quem tem fome de sabor, como quem nunca um doce provou. Singular, como a única flor capaz de brotar em meio ao inverno mais gélido e cruel. "Da-me comparação exata e poética para lhes dizer o que foram...", o que foram todos esses dias em que sua presença, que desafia o tempo e o espaço, não se fez presente. Todo este tempo, como captar oxigênio de maneira plena? Nunca responderemos. 

Da mesma forma que um perfumista é capaz de extrair o mais raro dos perfumes de qualquer material, com ela encontrei a melhor versão de mim. Todos os raios de sol invadindo uma mesma janela, aquecendo uma mesma pele, iluminando duas vidas. Os dias já não passavam despercebidos. As correntes que antes prendiam-me pelos pés, não deixaram de existir, apenas mantinham-se abertas, como uma gaiola em que o pássaro que lá vive escolhe se vai, se fica, se volta. 

Querem saber quem é ela. Como ela é? E como descrever, simplificá-la seria inferiorizar seu significado? Tal como um clarão à meia-noite, entorpece qualquer mente, ofusca a visão. Em dias de sol, em noites escuras, às manhãs chuvosas, durante a tarde vermelha, ela brilha, inebria a alma dos bem aventurados, povoa meus pensamentos, faz morada em meu coração, inspira minha escrita, meu acordar e tudo aquilo que se faz presente, desde o mais ingênuo dos sorrisos até a mais salgada lágrima que passeia em meu rosto. 

Pinta meus quadros, escreve minhas músicas, compõe minhas peças e me desarma, me deixa nua. Rasga meu peito de dentro para fora. Afoga minhas inseguranças, meus medos. Fecha meus olhos e me faz enxergar uma realidade nossa e pergunta "Por que você é assim?". Assim, vazia e cheia, vazia de tristeza e cheia de amor. Ela capacita minha mente, minhas atitudes, poderia construir qualquer castelo de areia e jamais derrubá-lo. 

Sinto-me capaz. Capaz da mais louca das loucuras de alegria, de amor, ah, chamem como quiser. Não dou nomenclatura ao que não sei explicar, ao que não se pode trancar. 

Estendi minha magra e longa mão, toquei a campanhia à sua porta. Não tenho a sua audição, mas pude sentir seus passos deslizando pelo piso liso das escadas. Baixei o olhar e fitando a calçada sorri com o canto da boca. Lá vem ela. Retumba o coração, trava a respiração, ela abre o portão e. Nossos olhos se encontram como se ela me encontrasse em um salão de festas e estendesse a mão, tirando-me para dançar. Ei você, onde vamos? Verdes olhos, posso me alojar aqui? Toquei a maçã do rosto mascavo dela, e o vi rubrar em meus dedos. Sua respiração padeceu, os olhos fechados e o pescoço inclinado de leve. Ah, minha menina. 

Aproximei o corpo do dela e encontrei sua cintura com minha outra mão. Os dedos que antes tocavam sua pele, agora estavam subindo sua nuca e mesclando-se aos cachos em seu cabelo. Teu abraço me sufocou tanto que cheguei a duvidar que tão herculana força fosse capaz de sair de seus braços aparentemente magros. O riso em seu ouvido denunciou o momento que minha armadura caiu ao chão, completamente inútil. E então os lábios dela se abriram e uma música tocou perguntando "Por que você é assim?", e eu respondi: "Por te amar. E que sorte a minha, modéstia à parte". 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Recuar




"Do brinde restou a mentira: talvez tudo termine, sim. Em entrelinhas ou não, talvez tenha faltado dizer: amo-te e, não como os demais, que já passaram por essas minhas páginas em branco, talvez eu tenha te dado muito; talvez fosse eu quem ultrapassou as expectativas numa curva côncava, ascendente, e não esperei."

Rodrigo Vignoliem

Nunca havia tentado mas, desta vez, sabia que precisava demolir as paredes acústicas da alma e deixar o som dela se mesclar com a razão, que gritava e implorava por espaço. Nem sabia se queria, só sentia que precisava. De uma urgência que só se explica no inconsciente das almas inquietas, como era a dela.

As palavras saiam de sua boca como pequenos pedaços de algodão mas, voltavam ao seu coração como gostas de ácido, que na dose certa causam apenas cicatrizes doloridas e permanentes. Deformam, transformam, desenham e nos pertencem. O amor não é doce?

Ela vendou os olhos para não se ver no espelho. Decidiu pela primeira vez ser mais justa e menos egoísta. E não é que não tenha merecido. Merecia sim. Aqueles sorrisos curaram doenças antes incuráveis, regaram flores secas e devolveriam a pulsação. Ela sabia. E como doía saber. Mas teve que escolher. 

Ninguém pode imaginar o quanto é difícil abandonar-se em uma rua fria e escura. Doar sua única lanterna para que ele possa encontrar seu próprio caminho. Se permitir seguir na angustia e renunciar. Dar dois passos para trás e recuar sem a certeza de que no fim do caminho existe uma solução ou mesmo uma recompensa honrosa por este ato de coragem extrema. Ninguém pode imaginar sequer qual é a sensação de se jogar num abismo infinito, sem a trava do medo mordendo a garganta e fazendo sangrar a verdadeira razão de existir: viver!

Viver. Era o que ela quis fazer enquanto o deixava sozinho, com o lado direito da camiseta molhado com suas lágrimas, naquela rua mal iluminada. Ele pediu para o choro parar. E ela pediu permissão para sentir a dor, para deixar curar e então, correu. O mais rápido que podia, até não sentir mais os pés tocando o chão, deixando o vento rasgar por entre os fios do seu cabelo, sem fôlego, sem destino, com a certeza apenas do fim. O abismo a sua frente era a liberdade e ela foi, e se atirou. De costas e de braços abertos. Peito sangrando e alma lavada. Não gritou pois queria a emoção do grito contido, ecoando mil vezes dentro do corpo que agora despencava em velocidade gradativa. 

Ela vendou os olhos para não se ver no espelho. Mas mais do que isso, vendou os olhos para não se ver atirando em si mesma. O prazo de validade era certo desde o início, nós humanos é que não queremos nunca admitir que sabemos do fim, pois o fim nunca é o suficiente. Não pode ser. E é por isso que ela se atirou no abismo. Não admitia que terminasse ali. Ela se atirou em uma reticências infinita para que, mesmo que nunca mais nada sentisse, o que sentisse, fosse eterno, como o amor que sempre quis ter. 



sexta-feira, 20 de março de 2015

Laringe



Para ouvir ao som de: Okinawa - SILVA 

Sempre gostei de guardar todas as minhas coisas. Principalmente as materiais. Em especial aquelas que me remetiam à algo ou alguém. Minha mãe me chama de guarda-tralhas mesmo depois dos meus vinte anos e ainda assim, não consigo me incomodar ao ponto de me livrar destes fragmentos de lembranças. Contudo, se existe algo que não consigo guardar são sentimentos. Quem me conhece sabe da minha teoria da corda bamba. Não faço show para pouca platéia e nem gosto de andar em corda bamba. Não subo no picadeiro se não for para voar e não desço se não for para viver. 

Outro dia vi um símbolo engraçado, te perguntei o que era e você me explicou que representava a nossa laringe. A nossa capacidade de não guardar as energias em nossa garganta. A necessidade de colocar tudo para fora, expressar o que sentimos mesmo que não seja tão bonito. Mesmo que não seja feliz. Eu acho que desde que me conheço, sempre fui melhor escrevendo do que falando, do que vivendo, do que qualquer outra coisa. As palavras são amigas, confidentes e apoios morais e psicológicos. E é por isso que não sinto peso e nem pudor em dizer que sinto a sua falta. 

No meu copo sempre mais cheio e no meu lado sempre mais 80 do que 8, você se encostou de leve, como quem não queria nada. Criou sem saber um vínculo enérgico de algo que, ainda não sei que nome tem, mas que se assemelha muito à qualquer sentimento que se deixe envolver pela palavra reciprocidade. Acordei esses dias procurando suas costas para deitar meu rosto, seu cheiro pra guiar um rastro e a sua voz pra acalmar as batidas do meu coração.

Sinto uma falta doce, aveludada, paciente e amigável. Uma falta bem vinda, de um espaço que embora fique vazio boa parte do tempo, sobrevive na expectativa e na certeza do preenchimento temporário. Daí que você pode até nem perceber, mas eu gosto de você. Mesmo viu? E fico procurando na minha sede incontrolável pela expressão, maneiras de entender em que parte daquele caminho a gente resolveu sintonizar. 

Sofro de uma ansiedade absurda, ousada e insistente. Sou daquelas que lê as últimas cinco páginas do livro antes mesmo de chegar no meio dele. Vou na frente pois tenho pressa da vida. E sempre foi assim, até agora. Já que agora, é outro tempo. Você com seu jeito sereno, aparece sempre como uma brisa leve para bagunçar meu cabelo. Vem cantando seus mantras que sempre me recolocam no lugar e eu fico aqui, como aquela cara de boba que você já conhece bem. E é por isso que me assusto tanto quando, meu copo está transbordando e você, com a habilidade de um barista, simplesmente me oferece um copo maior, para eu conseguir ser mais, sentir mais, viver mais. 

Você me agradeceu outro dia por te fazer seguir mesmo quando acredita ter chegado a um bom resultado, mas na verdade foi o contrário. Você me faz seguir por uma estrada escura, (que eu achei que era o fim da linha) e todo dia me faz descobrir que depois do escuro tem luz. Tem paz. Tem você. Tem algo com a gente. 

Eu acho que nunca vou conseguir controlar as coisas que digo. Nem as que sinto. Muito menos as que penso. E o que eu penso agora, é que bom que eu não vou conseguir nunca controlar, porque assim sei que é do meu real que você gosta. É nesse real que você acredita. E é esse meu real, misturado ao seu, que faz ser assim... único. Porque no final, tudo vai dar certo. Aliás, já deu! Lembra?