domingo, 21 de agosto de 2016

Modéstia à Parte



É tão bom te acompanhar
E ver você sendo você
Te observar me adivinhar
E me ler sem legenda nenhuma
É tão fácil te gostar
Vira parte do viver ♪ 
Ela se deixou em mim. Assim como quem não tem medo de se perder, como quem não quer pensar em descobrir o caminho de volta. Sua boca provou da minha assim como quem tem fome de sabor, como quem nunca um doce provou. Singular, como a única flor capaz de brotar em meio ao inverno mais gélido e cruel. "Da-me comparação exata e poética para lhes dizer o que foram...", o que foram todos esses dias em que sua presença, que desafia o tempo e o espaço, não se fez presente. Todo este tempo, como captar oxigênio de maneira plena? Nunca responderemos. 

Da mesma forma que um perfumista é capaz de extrair o mais raro dos perfumes de qualquer material, com ela encontrei a melhor versão de mim. Todos os raios de sol invadindo uma mesma janela, aquecendo uma mesma pele, iluminando duas vidas. Os dias já não passavam despercebidos. As correntes que antes prendiam-me pelos pés, não deixaram de existir, apenas mantinham-se abertas, como uma gaiola em que o pássaro que lá vive escolhe se vai, se fica, se volta. 

Querem saber quem é ela. Como ela é? E como descrever, simplificá-la seria inferiorizar seu significado? Tal como um clarão à meia-noite, entorpece qualquer mente, ofusca a visão. Em dias de sol, em noites escuras, às manhãs chuvosas, durante a tarde vermelha, ela brilha, inebria a alma dos bem aventurados, povoa meus pensamentos, faz morada em meu coração, inspira minha escrita, meu acordar e tudo aquilo que se faz presente, desde o mais ingênuo dos sorrisos até a mais salgada lágrima que passeia em meu rosto. 

Pinta meus quadros, escreve minhas músicas, compõe minhas peças e me desarma, me deixa nua. Rasga meu peito de dentro para fora. Afoga minhas inseguranças, meus medos. Fecha meus olhos e me faz enxergar uma realidade nossa e pergunta "Por que você é assim?". Assim, vazia e cheia, vazia de tristeza e cheia de amor. Ela capacita minha mente, minhas atitudes, poderia construir qualquer castelo de areia e jamais derrubá-lo. 

Sinto-me capaz. Capaz da mais louca das loucuras de alegria, de amor, ah, chamem como quiser. Não dou nomenclatura ao que não sei explicar, ao que não se pode trancar. 

Estendi minha magra e longa mão, toquei a campanhia à sua porta. Não tenho a sua audição, mas pude sentir seus passos deslizando pelo piso liso das escadas. Baixei o olhar e fitando a calçada sorri com o canto da boca. Lá vem ela. Retumba o coração, trava a respiração, ela abre o portão e. Nossos olhos se encontram como se ela me encontrasse em um salão de festas e estendesse a mão, tirando-me para dançar. Ei você, onde vamos? Verdes olhos, posso me alojar aqui? Toquei a maçã do rosto mascavo dela, e o vi rubrar em meus dedos. Sua respiração padeceu, os olhos fechados e o pescoço inclinado de leve. Ah, minha menina. 

Aproximei o corpo do dela e encontrei sua cintura com minha outra mão. Os dedos que antes tocavam sua pele, agora estavam subindo sua nuca e mesclando-se aos cachos em seu cabelo. Teu abraço me sufocou tanto que cheguei a duvidar que tão herculana força fosse capaz de sair de seus braços aparentemente magros. O riso em seu ouvido denunciou o momento que minha armadura caiu ao chão, completamente inútil. E então os lábios dela se abriram e uma música tocou perguntando "Por que você é assim?", e eu respondi: "Por te amar. E que sorte a minha, modéstia à parte". 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Recuar




"Do brinde restou a mentira: talvez tudo termine, sim. Em entrelinhas ou não, talvez tenha faltado dizer: amo-te e, não como os demais, que já passaram por essas minhas páginas em branco, talvez eu tenha te dado muito; talvez fosse eu quem ultrapassou as expectativas numa curva côncava, ascendente, e não esperei."

Rodrigo Vignoliem

Nunca havia tentado mas, desta vez, sabia que precisava demolir as paredes acústicas da alma e deixar o som dela se mesclar com a razão, que gritava e implorava por espaço. Nem sabia se queria, só sentia que precisava. De uma urgência que só se explica no inconsciente das almas inquietas, como era a dela.

As palavras saiam de sua boca como pequenos pedaços de algodão mas, voltavam ao seu coração como gostas de ácido, que na dose certa causam apenas cicatrizes doloridas e permanentes. Deformam, transformam, desenham e nos pertencem. O amor não é doce?

Ela vendou os olhos para não se ver no espelho. Decidiu pela primeira vez ser mais justa e menos egoísta. E não é que não tenha merecido. Merecia sim. Aqueles sorrisos curaram doenças antes incuráveis, regaram flores secas e devolveriam a pulsação. Ela sabia. E como doía saber. Mas teve que escolher. 

Ninguém pode imaginar o quanto é difícil abandonar-se em uma rua fria e escura. Doar sua única lanterna para que ele possa encontrar seu próprio caminho. Se permitir seguir na angustia e renunciar. Dar dois passos para trás e recuar sem a certeza de que no fim do caminho existe uma solução ou mesmo uma recompensa honrosa por este ato de coragem extrema. Ninguém pode imaginar sequer qual é a sensação de se jogar num abismo infinito, sem a trava do medo mordendo a garganta e fazendo sangrar a verdadeira razão de existir: viver!

Viver. Era o que ela quis fazer enquanto o deixava sozinho, com o lado direito da camiseta molhado com suas lágrimas, naquela rua mal iluminada. Ele pediu para o choro parar. E ela pediu permissão para sentir a dor, para deixar curar e então, correu. O mais rápido que podia, até não sentir mais os pés tocando o chão, deixando o vento rasgar por entre os fios do seu cabelo, sem fôlego, sem destino, com a certeza apenas do fim. O abismo a sua frente era a liberdade e ela foi, e se atirou. De costas e de braços abertos. Peito sangrando e alma lavada. Não gritou pois queria a emoção do grito contido, ecoando mil vezes dentro do corpo que agora despencava em velocidade gradativa. 

Ela vendou os olhos para não se ver no espelho. Mas mais do que isso, vendou os olhos para não se ver atirando em si mesma. O prazo de validade era certo desde o início, nós humanos é que não queremos nunca admitir que sabemos do fim, pois o fim nunca é o suficiente. Não pode ser. E é por isso que ela se atirou no abismo. Não admitia que terminasse ali. Ela se atirou em uma reticências infinita para que, mesmo que nunca mais nada sentisse, o que sentisse, fosse eterno, como o amor que sempre quis ter. 



sexta-feira, 20 de março de 2015

Laringe



Para ouvir ao som de: Okinawa - SILVA 

Sempre gostei de guardar todas as minhas coisas. Principalmente as materiais. Em especial aquelas que me remetiam à algo ou alguém. Minha mãe me chama de guarda-tralhas mesmo depois dos meus vinte anos e ainda assim, não consigo me incomodar ao ponto de me livrar destes fragmentos de lembranças. Contudo, se existe algo que não consigo guardar são sentimentos. Quem me conhece sabe da minha teoria da corda bamba. Não faço show para pouca platéia e nem gosto de andar em corda bamba. Não subo no picadeiro se não for para voar e não desço se não for para viver. 

Outro dia vi um símbolo engraçado, te perguntei o que era e você me explicou que representava a nossa laringe. A nossa capacidade de não guardar as energias em nossa garganta. A necessidade de colocar tudo para fora, expressar o que sentimos mesmo que não seja tão bonito. Mesmo que não seja feliz. Eu acho que desde que me conheço, sempre fui melhor escrevendo do que falando, do que vivendo, do que qualquer outra coisa. As palavras são amigas, confidentes e apoios morais e psicológicos. E é por isso que não sinto peso e nem pudor em dizer que sinto a sua falta. 

No meu copo sempre mais cheio e no meu lado sempre mais 80 do que 8, você se encostou de leve, como quem não queria nada. Criou sem saber um vínculo enérgico de algo que, ainda não sei que nome tem, mas que se assemelha muito à qualquer sentimento que se deixe envolver pela palavra reciprocidade. Acordei esses dias procurando suas costas para deitar meu rosto, seu cheiro pra guiar um rastro e a sua voz pra acalmar as batidas do meu coração.

Sinto uma falta doce, aveludada, paciente e amigável. Uma falta bem vinda, de um espaço que embora fique vazio boa parte do tempo, sobrevive na expectativa e na certeza do preenchimento temporário. Daí que você pode até nem perceber, mas eu gosto de você. Mesmo viu? E fico procurando na minha sede incontrolável pela expressão, maneiras de entender em que parte daquele caminho a gente resolveu sintonizar. 

Sofro de uma ansiedade absurda, ousada e insistente. Sou daquelas que lê as últimas cinco páginas do livro antes mesmo de chegar no meio dele. Vou na frente pois tenho pressa da vida. E sempre foi assim, até agora. Já que agora, é outro tempo. Você com seu jeito sereno, aparece sempre como uma brisa leve para bagunçar meu cabelo. Vem cantando seus mantras que sempre me recolocam no lugar e eu fico aqui, como aquela cara de boba que você já conhece bem. E é por isso que me assusto tanto quando, meu copo está transbordando e você, com a habilidade de um barista, simplesmente me oferece um copo maior, para eu conseguir ser mais, sentir mais, viver mais. 

Você me agradeceu outro dia por te fazer seguir mesmo quando acredita ter chegado a um bom resultado, mas na verdade foi o contrário. Você me faz seguir por uma estrada escura, (que eu achei que era o fim da linha) e todo dia me faz descobrir que depois do escuro tem luz. Tem paz. Tem você. Tem algo com a gente. 

Eu acho que nunca vou conseguir controlar as coisas que digo. Nem as que sinto. Muito menos as que penso. E o que eu penso agora, é que bom que eu não vou conseguir nunca controlar, porque assim sei que é do meu real que você gosta. É nesse real que você acredita. E é esse meu real, misturado ao seu, que faz ser assim... único. Porque no final, tudo vai dar certo. Aliás, já deu! Lembra?







sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Carnavália





Para ler ao som de: Carnavália - TRIBALISTAS


Eu juro que não lembrava mais. Não lembrava mais de tantas coisas que acho que minha mente já havia se tornando um limbo de emoções felizes. Um verdadeiro espaço escuro, onde tudo que eu achava que me fazia bem estava guardado. Coberto de poeira e um cheiro de mofo absurdo. Eu não lembrava mais qual era a sensação da luz batendo no rosto ou do vento passeando entre os fios do meu cabelo. Não lembrava também que textura tinha o som doce de uma voz agradável. Todas essas memórias empíricas haviam se perdido em um tempo frio e barulhento, cheio de tormentas de amores e dores passadas que nunca se fecharam de verdade. Nunca morreram dentro de mim. E eu não queria que morressem. Prefira que ficassem ali, se alimentando de tudo de bom que pudesse se aproximar. Preferia sentir a dor do que não sentir nada. A minha aversão pela indiferença me deixou blindada. 

Você atirou uma pedra contra mim. Sua pedra atingiu meu muro de vidro e me assustou. Meu muro, que eu construí com tanto choro e tantos gritos durante os pesadelos. Meu muro ao redor do meu coração cheio de espinhos. Você deixou os cacos caírem um a um no chão como confetes de carnaval. Coloridos, brilhantes, macios. Quando eu olhei dentro dos seus olhos, eu me lembrei que eu não lembrava mais como era sentir o peito tamborilando como uma pequena escola de samba, que vai desfilando na avenida e reverenciando a vida e tudo de feliz que ela pode trazer. Dentro dos seus pequenos, intrigantes e lindos olhos eu lembrei que tinha vontade. Vontade de voltar a sentir os perfumes de tudo que me agradava, de tudo que me fazia ficar com essa cara de boba que eu fico toda vez que você diz aquelas palavras com "i". 

Você pegou os confetes no ar e os jogou em mim novamente e nessa hora você abriu a janela do meu limbo. Do meu quarto escuro com coisas boas guardadas e esquecidas. Você tirou o pó da alegria, da esperança, daquela pontinha de paixão que estava quebrada no chão. Foi uma verdadeira faxina. Você pintou em mim cores que eu não conhecia mais. Seus dedos percorreram meu corpo abrindo caminho para sensações que eu achava que nunca iria sentir. Mas eu senti. E gostei, viu moço? Ah, e moço porque "querido" era muito longe e "amor" era muito perto. Então vai moço mesmo, viu moço?

A banda tocou no carnaval e a gente dançou junto. E foi junto mesmo, grudado, marcado, sentindo, intenso. De um jeito mágico. De um jeito nosso. Do seu jeito. Naquele dia quando você desceu do carro eu te disse para você ficar, e disse mesmo. Mas na verdade eu queria que nunca tivesse ido. Porque eu tenho a sensação que a gente se perdeu e se achou de novo só pra dar uma emoção. Você me estendeu um botão brilhante escrito "FELICIDADE" e convidou: vem ou fica? 

Eu vou com você e fico com você, nesse ritmo de redescobrir todos os cantos desse limbo que eu sinto que parou de existir. Parou de latejar e me gritar a cada minuto. Eu vou, tá moço? Mas só se você ficar. Fica? Fica pra gente poder ver aquela rua grandona cheia de gente bonita e feliz. Fica pra gente poder continuar acreditando que na verdade, todas as religiões são uma coisa só mas vistas de maneiras diferentes? Fica preu poder não esquecer mais que o importante é ter alguém pra rir junto, do jeito que só a gente já aprendeu a fazer.






segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Acabou



Tenho tentado obstinadamente fugir de você. Durante muito tempo procurei saídas e alternativas para me manter afastado. E só de pensar na possibilidade de cruzar - por qualquer razão - contigo em qualquer esquina do meu peito, minha pele se arrepiava toda e meu estômago virava uma trouxinha de panos pronta para sair pela minha boca. 

Você tá negando agora, mas eu sei muito bem que anda me perseguindo, sim. Não começa a balançar a cabeça e dizer que não porque fica feio mentir agora. Eu te vi lá. Enquanto eu lia aquele livro, naquela festa encostada no fumódromo. Até me espiando no banheiro! Que absurdo! E sem falar naquele restaurante que eu adoro. No parque, cinema, museu, sorveteria, você não mediu esforços hein?

Às vezes eu achava que você ia surgir de alguma moita qualquer e me agarrar e me engolir sem mastigar, de tão perto que eu te sentia de mim. Mas eu apertava o passo e atrasava mais um pouco o nosso reencontro. É, reencontro. Pensa que eu não lembro? Você taí fazendo essa cara de sonsa mas sabe muito bem que eu nunca te esqueci. E tinha como?! Ei! Sem esse sorriso, por favor. 

Nosso combinado foi claro desde o começo: você iria embora e ia controlar essa obsessão por mim, para o nosso bem, lembra? Mas não adiantou. No começo até achei que tinha dado certo, deu uma sumida, se afastou, mas não teve jeito. Um dia eu estava passando por aquela rua e esbarrei com ele. "PUTS! Fudeu", eu pensei quando olhei por cima do ombro dele e vi você. Tímida. Inocente. Quieta. Tão ingênua que cheguei a acreditar que seria inofensiva, mas não...é claro que não. Naquele momento eu acho que eu tinha a chance de escolher. Mas eu não pensei muito bem. E acho que no fundo, mesmo que tivesse pensado, teria escolhido ele. Porque sempre foi ele. Desde o começo, com ou sem você. Tinha que ser ele e eu não ia poder fugir daquilo. Eu escolhi o amor. 

Tenho tentado desde então, me manter o mais distante possível. Me entregando aos mais loucos rituais para ver se alguma coisa dá certo. Esperando um amém descer dos céus e impedir qualquer aproximação. Mas foi inevitável. Você veio na surbina, sem fazer muito barulho e agora que tudo acabou, que você conseguiu mais uma vez levar de novo a confiança, a alegria, a dedicação, a força, o tempo e o amor, somos eu e você. One more time.

A dor e o coração. Uma outra vez sozinho com o sofrimento. Agudo. Pulsante. Vivo. Destrutivo. Latente e gritante. Jogados dentro de uma sala, sentados numa mesa, frente a frente, sendo obrigados a se encarar, a se observar, sentir e respirar o mesmo ar como se uma guerra fria tivesse sido declarada. Esperando quem desta vez deve ser vivo, ou menos dilascerado. 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Compulsão Alimentar



Não adianta negar. Todo mundo sofre um pouco com isso. Pode ser que não a todo momento, mas uma hora acontece, é inevitável, não adianta tentar fugir ou fingir que não é com você. Cada um de nós amarga uma coisa que eu decidi chamar de compulsão alimentar. 

É aquela necessidade de preencher alguns dos nossos sentimentos com alguma coisa. Qualquer coisa que possa fazer com que nós possamos nos sentir vivos, ou pelo menos, perto disso. Algumas pessoas preferem acreditar que esta, é uma forma pessimista de entender e reconhecer certas coisas que moram dentro da gente. Mas não tem como fugir, e eu posso te contar o porquê.  

Não importa se o que você sente é algo triste ou feliz, nós sempre iremos procurar uma maneira de realizar a manutenção dessas sensações. Mandar uma mensagem de boa noite todos os dias e receber um emoticon amarelinho sorrindo como resposta pode ser suficiente para alimentar aquela se sensação de "tudo bem, pode dormir, amanhã é outro dia". E ao mesmo tempo, quando a dor é presencial, basta uma visita na página do facebook dela ou dele. Uma foto, um perfume, até mesmo alguma cena cotidiana na rua consegue nutrir aquela sensação devastadora que vai corroendo tudo dentro do peito como um rastro de ácido. 

Você pode até dizer que não concordar comigo agora, mas, nós no fundo gostamos um pouco de saber que não somos nulos. O que eu quero dizer com isso? Quero dizer que não importa o que você sente, com o tanto que sinta. Não importa se é um sorriso ou se são lágrimas, o que importa é que lá dentro, seu sangue continua correndo, rápido ou devagar, você querendo ou não e isso, na maior parte das vezes é o suficiente para não desistir.

Eu tô falando daquela vontade absurda de ocupar cada espaço vazio dentro de algum lugar do nosso corpo ou alma que não pode, de jeito nenhum, ficar vago, porque o vazio dá medo. É por isso que quem é feliz por muito tempo não sabe o que fazer quando isso simplesmente "acaba", cê fica aí numa busca tão intensa, numa compulsão tão forte que vai comendo, engolindo, enfiando tudo que acha pela frente que pode prolongar essa sensação boa que nem se dá conta que as vezes, nem precisava mais e quando acaba o amor ou a felicidade, vira aquele apartamento frio, sujo e bagunçado, sem móveis, sem moradores, só você, o vento e a sujeira. E é por isso também que quando a dor vai embora, dá medo de sair comprando os móveis novamente, dá uma agonia de habitar, de conviver de novo. A gente custa a ceder, a dar meia volta e comprar aquele quadro pin up bonitinho que super vai combinar com a sala porque o clean parece tão mais seguro para quem já teve que reformar tudo. 

Então, não tem jeito, eu sei que não é fácil de admitir, mas é melhor se você o fizer. Eu acredito que a consciência é uma das formas mais respeitosas de felicidade ou tristeza. Quando nós entendemos como chegamos ali e como nos mantemos, tudo parece mais duro, mais rígido, porém, muito mais real e menos doloroso. Eu não acho que quem sofre ou quem é feliz tem que ter vergonha de admitir que usa coisas ou momentos bobos para manter seus sentimentos vivos, nós somos assim.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Armadura



Seja meu amigo. Preserve meu coração, me dê o direito de explorar a minha dor, a minha tristeza. Permita que meu corpo se acostume ao desconforto do sofrimento ininterrupto que abala as estruturas do meu âmago. Estou te pedindo, quase implorando para que deixe o sabor amargo durar mais um pouco.

Não se sinta a pior pessoa do mundo ou alguém incapaz de ajudar ao próximo quando eu estou escolhendo abrir meu peito e a deixar entrar. É preciso muita coragem, uma dose inexplicável de amor próprio e uma força quase desumana que não-se-sabe-de-onde-vem para estar aqui. Escolher de bom grado subir em um palanque à praça pública gritando para que as pedras sejam jogadas.

Não entenda mal. Não acho justo quando as pessoas se permitem sofrer gratuitamente, pelo simples fato de não terem capacidade e fé para enfrentar seus próprios problemas; definitivamente não estamos falando da mesma coisa. O que jogo nesta mesa hoje é uma dor permitida, uma tristeza autorizada. Necessária, ramificada, pensada e porque não dizer: minha. E só minha.

Uma vez li o seguinte: “A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido*”.

A tristeza de hoje, a minha, não tem a ver com a perca do sentido em minha vida, em meus amigos, família ou profissão. Está ligada a uma perca de armadura, uma exposição à minha fragilidade que, não se assuste, é normal. Ás vezes um pouco frequente, porém nunca tão consciente. Hoje eu não me sinto bem realmente, não há algo que possa curar a sensação de perca no espaço e tempo e a angústia que se instalou em minha garganta como um chiclete que gruda nos cabelos.

A angústia de hoje tem um gosto de aceitação, de reconhecimento da guarda baixada e dói sim, como não iria doer? Pior é ainda ter a consciência de que a mudança em uma realidade é vagarosa, cruel e egoísta. Mas deixe estar.


Seja meu amigo. Aceite minha dor, respeite meu espaço. Ouça meu choro, ou não. Dê-me seu ombro, ou não. Mas entenda. Entenda-me. Permita-me viver a minha tristeza e minha descrença no amor, nas soluções instantâneas e nas cicatrizes que não chegam aqui. “A dor precisa ser sentida”. 

*Martha Medeiros - A Tristeza Permitida