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Dor de Choro


"Eu só preciso de alguém que me abrace e diga que entenda. Que entenda como é se sentir sozinho. Como é se sentir perdido e desamparado, sem saber pra onde está indo, por que está indo ou mesmo quem está ao seu lado. Alguém que entenda como é absorver  tudo o que sente tão desesperadamente e ser corroído por todas essas impressões, por  toda sensibilidade. Que entenda como é ter vontade de se desfazer nas lágrimas que  represa todos os dias - por medo, tristeza, dor. Alguém que vai me fazer acreditar de  novo, que vai abrir a porta desse quarto bagunçado e, ao invés de fechá-la novamente,  vai entrar, abrir suas janelas para a luz do sol e tirar a poeira de cima das esperanças,  dos sonhos, dos desejos."  
Larissa Mattos

Provavelmente já passava da hora do almoço quando ela, finalmente, fez um movimento em cima do colchão e debaixo dos cobertores. Não havia acordado naquele momento. Na verdade, tinha dúvidas até de se tinha realmente dormido aquela noite. 

Abriu os olhos com um pesar melancólico. E até com um pouco de raiva, diria. Fitou o teto do quarto que não era o seu e todas as outras coisas ao redor. Não soube de imediato dizer aonde estava mas, sinceramente, não interessava. Inspirou profundamente e sentiu um incomodo dentro do peito que, de certo não era físico. Era aquela dor de choro, sabe? Aquela agonia irritante que amarga nossa boca. 

Puxou com dificuldade os tecidos que aqueciam seu corpo e permitiu que o frio tocasse sua pele. Talvez uma maneira de compensar a outra dor. No fim das contas, não adiantou. Na verdade só piorou. Agora estava com frio e com vontade de chorar, grande merda. Mesmo assim não voltou a se deitar. Sentou-se na beira da cama e mais uma vez puxou o ar de dentro dos pulmões que pareciam preguiçosos ou talvez fossem apenas um reflexo da verdadeira vontade dela. 

Alisou as pernas como se quisesse esquentar as mãos e baixou o rosto em direção aos joelhos. Procurou forças e motivos para sair daquela posição mas definitivamente não estava afim. Correu os dedos finos pelo cabelo sujo da noite anterior e desejou ter coragem para se levantar e tomar um banho. Mas, apenas desejou. Correu a língua pelos lábios secos e mordeu o inferior, querendo inocentemente sentir o gosto de sangue, mas nem pra isso tinha forças. Olhou para o lado, levantou o dorso e esticou uma das mãos. Puxou sua fantasia e vestiu aos poucos. E devagar foi se compondo, se desenhando, se fazendo ser àquela que todos conheciam/queriam. Juntou todos os pedaços de si dentro daquele invólucro invisível e finalizou com sua máscara. Sorrindo

Era até engraçado sabe? Ela era engraçada. Não sei se porque vestia uma máscara todos os dias para sair ou se porque representava muito bem, ou se porque era realmente confusa e difícil de entender. Minha mãe sempre diz que quem muito escolhe acaba sem nada. Ou que quem quer tudo, também acaba sem nada. Ela dizia amar e gostar de todas as pessoas, no melhor e maior sentido. Mas estava sempre sozinha...sempre à mercê. Mas sei lá... ela é ela né?!

Eu só tô contando a história de uma menina que eu conhecia. Ela era triste, e sorria. 

Comentários

  1. Respostas
    1. Oi Samantha! Eu sempre acho que existe um lado bom e um ruim nisso. Espero que seja apenas pelo lado bom, porque ninguém merece se sentir assim...

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