segunda-feira, 4 de maio de 2015

Recuar




"Do brinde restou a mentira: talvez tudo termine, sim. Em entrelinhas ou não, talvez tenha faltado dizer: amo-te e, não como os demais, que já passaram por essas minhas páginas em branco, talvez eu tenha te dado muito; talvez fosse eu quem ultrapassou as expectativas numa curva côncava, ascendente, e não esperei."

Rodrigo Vignoliem

Nunca havia tentado mas, desta vez, sabia que precisava demolir as paredes acústicas da alma e deixar o som dela se mesclar com a razão, que gritava e implorava por espaço. Nem sabia se queria, só sentia que precisava. De uma urgência que só se explica no inconsciente das almas inquietas, como era a dela.

As palavras saiam de sua boca como pequenos pedaços de algodão mas, voltavam ao seu coração como gostas de ácido, que na dose certa causam apenas cicatrizes doloridas e permanentes. Deformam, transformam, desenham e nos pertencem. O amor não é doce?

Ela vendou os olhos para não se ver no espelho. Decidiu pela primeira vez ser mais justa e menos egoísta. E não é que não tenha merecido. Merecia sim. Aqueles sorrisos curaram doenças antes incuráveis, regaram flores secas e devolveriam a pulsação. Ela sabia. E como doía saber. Mas teve que escolher. 

Ninguém pode imaginar o quanto é difícil abandonar-se em uma rua fria e escura. Doar sua única lanterna para que ele possa encontrar seu próprio caminho. Se permitir seguir na angustia e renunciar. Dar dois passos para trás e recuar sem a certeza de que no fim do caminho existe uma solução ou mesmo uma recompensa honrosa por este ato de coragem extrema. Ninguém pode imaginar sequer qual é a sensação de se jogar num abismo infinito, sem a trava do medo mordendo a garganta e fazendo sangrar a verdadeira razão de existir: viver!

Viver. Era o que ela quis fazer enquanto o deixava sozinho, com o lado direito da camiseta molhado com suas lágrimas, naquela rua mal iluminada. Ele pediu para o choro parar. E ela pediu permissão para sentir a dor, para deixar curar e então, correu. O mais rápido que podia, até não sentir mais os pés tocando o chão, deixando o vento rasgar por entre os fios do seu cabelo, sem fôlego, sem destino, com a certeza apenas do fim. O abismo a sua frente era a liberdade e ela foi, e se atirou. De costas e de braços abertos. Peito sangrando e alma lavada. Não gritou pois queria a emoção do grito contido, ecoando mil vezes dentro do corpo que agora despencava em velocidade gradativa. 

Ela vendou os olhos para não se ver no espelho. Mas mais do que isso, vendou os olhos para não se ver atirando em si mesma. O prazo de validade era certo desde o início, nós humanos é que não queremos nunca admitir que sabemos do fim, pois o fim nunca é o suficiente. Não pode ser. E é por isso que ela se atirou no abismo. Não admitia que terminasse ali. Ela se atirou em uma reticências infinita para que, mesmo que nunca mais nada sentisse, o que sentisse, fosse eterno, como o amor que sempre quis ter. 



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