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Henrique - Pt I





Tenho a impressão que lá fora, o mundo inteiro ainda está em suas camas, confortáveis, em algum lugar afastado da realidade cruel e nojenta na qual vivemos. Porque o sono nos dá isso, ele tem a capacidade de te transportar para onde e quando você quer e prefere ir. É claro que, pesadelos são uma exceção, mas não vou falar deles na minha história. 

Na minha história eu vou falar de mim, e dele. Mesmo que eu tenha a impressão que isso só significa, definitivamente, falar unicamente dele. 

Neste momento na minha mesa, além do meu notebook, tem também uma xícara de um café que eu nunca vou beber, mas, como eu gosto do cheiro e como foi ele quem fez, eu resolvi esquentar e deixar aqui do lado, para ver se me dava alguma inspiração. Embora a maior delas esteja um pouco mais a frente, jogado na minha cama, dormindo como se todos os problemas do planeta pudessem ser esquecidos, por uma noite, por um dia. Sorrio, ao pensar que, obviamente ele não resolveu e nem pode resolver todas essas questões, mas que há algumas horas eu senti, em seus beijos, em seu calor, na fricção da sua pele contra a minha, que os meus sim, os meus problemas, ele foi capaz de sucumbir. Esfrego dois dedos nos lábios e me permito viver 3 segundos daquele momento novamente. E então me viro mais uma vez para o teclado e respiro fundo. 

Henrique é um amor que eu inventei. digito

Tenho pouquíssimos anos de vida. Mas o suficiente para achar que entendo um pouco sobre ela e sobre relacionamentos e é claro, sobre o pacote que vem junto com eles: amor, sofrimento, e aquele misto enlouquecedor do sobe e desce dos sentimentos. Eu conheci o Henrique em uma festa. Sim, nada demais. Eu gosto muito de festas, contudo, ultimamente, tenho pensado se gosto delas por serem festas mesmo ou se são uma fuga para me manter longe da minha própria realidade complexa e mentirosa. Bem, ainda não tenho uma resposta. Mas foi isso, ele estava lá, com dois ou três amigos, homens e mulheres, e eu, como já deve esperar, estava um pouco mais alta em relação ao álcool. Não estava sozinha, mas naquele instante foi como se estivesse. Então me aproximei. Ah! Não ache que fiz isso porque estava bêbada ok? Muito pelo contrário, eu faria se estivesse sóbria também, acho que nunca tive problemas com "conhecer novas pessoas" ainda mais num ambiente como numa festa. 

Só um minuto, estou enjoada... 
Ah, voltei. E não, engraçadinho, não estou grávida. É que fazem horas que não como nada e meu corpo já está começando a reclamar. Mas acho mais fácil escrever quando estou livre de qualquer prazer, e diga-se de passagem, comer é um forte rival neste quesito.

Como estava dizendo, cheguei perto de Henrique e fiz o que muitas pessoas choram de medo de fazer. Toquei no ombro dele e quando ele se virou eu sorri e disse: "Oi!". Ok, Henrique não é um cara que faz o ciclo menstrual das garotas mudar só com uma piscada no olhar. Não. Ele tem uma beleza diferente, eu diria até peculiar. É alto, não muito magro, tem os olhos castanhos bem claros e bem, o que eu mais gosto, tem uma voz marcante e um cheiro... ah, o perfume. Pois é, ficamos ali, conversando durante o que me pareceram horas. Falamos desde as músicas que gostamos até às frutas que odiamos, e ah, ótimo! ele odeia figo também! Rs. 

Num piscar de olhos, a noite acabou e eu precisava ir. E como não estava sozinha não havia a menor possibilidade de "fugir" para qualquer outro lugar. Estava sem meu celular e tive que fazer algo que sim, me deixa extremamente insegura: passar meu número para ele e cultivar uma pouquinho de expectativa de que ele se lembraria de me ligar ou mandar um "olá" no dia seguinte. Nos despedimos e ele me beijou. Naquele beijo não senti, sinceramente, nada de excepcional. Meu coração não bateu mais rápido e nem soube que algo em minha vida havia mudado. Não. Não houve nada. Nem estrelas, nem fogos, nem calor. Apenas um beijo. Mas fiz com que ele achasse que tivesse me tirado do chão. Não sei bem o porquê, mas depois de soltar seus lábios e parecer bem ofegante eu soube, pelos olhos dele, que queria que ele fosse minha mentira. 

Ele não me mandou um "Olá" no dia seguinte. Na verdade ele mandou: "Babi. Não sei o que você colocou na minha bebida ou na nossa conversa, mas confesso que estou realmente cogitando repetir a dose. Adorei conhecer você. Beijos Rike". Eu li. Não sorri. Não demonstrei nenhuma reação do tipo: "OMG, ele lembrou de mim e OMFG, ele quer sair comigo de novo". Não. Mas respondi como se tivesse sido assim. E por fim, nós nos encontramos, uma, duas, cinco vezes. Foram 2 meses. Dois meses de sorrisos falsos, de beijos ofegantes, de frases como "eu adoro estar com você" ou "que bom ter achado você". 

Ele estava feliz. E eu tinha todos os motivos para estar também. Mas apenas tinha. 

Esperem, ele está acordando. 


Continua... 




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