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Vai dar tempo?

So, before you go
Was there something I could've said
To make it all stop hurting?
It kills me how your mind can make you feel so worthless

Será que a gente vai ter tempo para fazer tudo o que acha que não tem tempo pra fazer hoje? Será que amanhã, ou depois, ou qualquer outro dia que vai se chamar “amanhã” de novo, a gente consegue finalmente começar aquela dieta? Frequentar a academia, pegar o carro pra dirigir? Juntar a grana para aquela viagem? Se organizar e ir morar sozinho? Sozinho, só você e você, com essas pendências e todas as outras mais que a sua memória fez questão de esquecer agora, afinal, é muita informação para um só HD. Será? Sei lá. 

Eu sei lá o que é que eu quero hoje, mas quero tudo isso. Tudo isso que eu nem sei o que é, mas sei que vai dar trabalho, então é melhor querer agora, do que decidir querer depois e de repente perceber que eu nem queria mesmo. Acho que isso de “eu nem queria mesmo”, é quase uma estratégia nossa, para quando o caminho tá difícil demais, amargo demais, a gente simplesmente deita a peça do xadrez e se entrega. Estende a mão ao adversário e sorri, como se não tivesse doído ter corrido tanto até ali e perceber que não deu certo.

Tem dias que fico me perguntando se vai dar tempo. Tempo é uma construção tão complexa né? Por que será que a gente criou o tempo? Pra dizer que está tarde, ou para dizer que ainda temos muito e vai dar. Vai dar pra fazer, vai dar tempo, tempo, tempo. As pessoas dizem: “mas você é tão jovem; pode fazer essa cirurgia tranquila, seu corpo aguenta”, mas quem foi que disse que eu me sinto jovem? Como é que eu faço as pessoas entenderem que viver aqui dentro desse corpo, dessa pele, já levou tempo demais, e tempo demais é muito tempo para pensar que o tempo que leva para se recuperar de uma cirurgia agressiva é muito coisa?

Será que amanhã já é tarde demais ou depois de amanhã ainda estarei com tempo? Quando a gente sabe se já passou da hora ou se ainda estamos em tempo de fazer alguma coisa? Como é que a gente sabe que é o momento certo, o dia certo, a hora, a temperatura, a curva do vento, a lunação correta? Sei lá. Acho que, no fundo, a gente não sabe, e não vai saber, não tem como saber, e é esse o jogo do tempo. Mover as peças sem saber se a próxima jogada vai te obrigar a ajoelhar, ou vai te dar as armas certas para ganhar. 

O problema é que jogar o jogo do tempo cansa, e cansar também é questão de tempo. E se a gente eliminar ele? O tempo. E só viver, um dia depois do outro, deixando as coisas acontecerem? Vão dizer que estamos perdendo tempo. Mas como se perde algo que nunca tivemos? Temos? Será? Sei lá. Penso que vivemos e somos criados para acreditar que estamos sempre atrasados, como o coelho da Alice. Mas se estamos atrasados e temos tanto para fazer, será que vai dar tempo?




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