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Carnavália





Para ler ao som de: Carnavália - TRIBALISTAS


Eu juro que não lembrava mais. Não lembrava mais de tantas coisas que acho que minha mente já havia se tornando um limbo de emoções felizes. Um verdadeiro espaço escuro, onde tudo que eu achava que me fazia bem estava guardado. Coberto de poeira e um cheiro de mofo absurdo. Eu não lembrava mais qual era a sensação da luz batendo no rosto ou do vento passeando entre os fios do meu cabelo. Não lembrava também que textura tinha o som doce de uma voz agradável. Todas essas memórias empíricas haviam se perdido em um tempo frio e barulhento, cheio de tormentas de amores e dores passadas que nunca se fecharam de verdade. Nunca morreram dentro de mim. E eu não queria que morressem. Prefira que ficassem ali, se alimentando de tudo de bom que pudesse se aproximar. Preferia sentir a dor do que não sentir nada. A minha aversão pela indiferença me deixou blindada. 

Você atirou uma pedra contra mim. Sua pedra atingiu meu muro de vidro e me assustou. Meu muro, que eu construí com tanto choro e tantos gritos durante os pesadelos. Meu muro ao redor do meu coração cheio de espinhos. Você deixou os cacos caírem um a um no chão como confetes de carnaval. Coloridos, brilhantes, macios. Quando eu olhei dentro dos seus olhos, eu me lembrei que eu não lembrava mais como era sentir o peito tamborilando como uma pequena escola de samba, que vai desfilando na avenida e reverenciando a vida e tudo de feliz que ela pode trazer. Dentro dos seus pequenos, intrigantes e lindos olhos eu lembrei que tinha vontade. Vontade de voltar a sentir os perfumes de tudo que me agradava, de tudo que me fazia ficar com essa cara de boba que eu fico toda vez que você diz aquelas palavras com "i". 

Você pegou os confetes no ar e os jogou em mim novamente e nessa hora você abriu a janela do meu limbo. Do meu quarto escuro com coisas boas guardadas e esquecidas. Você tirou o pó da alegria, da esperança, daquela pontinha de paixão que estava quebrada no chão. Foi uma verdadeira faxina. Você pintou em mim cores que eu não conhecia mais. Seus dedos percorreram meu corpo abrindo caminho para sensações que eu achava que nunca iria sentir. Mas eu senti. E gostei, viu moço? Ah, e moço porque "querido" era muito longe e "amor" era muito perto. Então vai moço mesmo, viu moço?

A banda tocou no carnaval e a gente dançou junto. E foi junto mesmo, grudado, marcado, sentindo, intenso. De um jeito mágico. De um jeito nosso. Do seu jeito. Naquele dia quando você desceu do carro eu te disse para você ficar, e disse mesmo. Mas na verdade eu queria que nunca tivesse ido. Porque eu tenho a sensação que a gente se perdeu e se achou de novo só pra dar uma emoção. Você me estendeu um botão brilhante escrito "FELICIDADE" e convidou: vem ou fica? 

Eu vou com você e fico com você, nesse ritmo de redescobrir todos os cantos desse limbo que eu sinto que parou de existir. Parou de latejar e me gritar a cada minuto. Eu vou, tá moço? Mas só se você ficar. Fica? Fica pra gente poder ver aquela rua grandona cheia de gente bonita e feliz. Fica pra gente poder continuar acreditando que na verdade, todas as religiões são uma coisa só mas vistas de maneiras diferentes? Fica preu poder não esquecer mais que o importante é ter alguém pra rir junto, do jeito que só a gente já aprendeu a fazer.






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